Relato de experiência

 

Conscientização e gênero: um relato de experiência com enfoque na Psicologia Escolar / Conciencia y género: un informe de experiencia centrado en la Psicología Escolar / Awareness and gender: an experience report focusing on School Psychology

 

Karlla Lyssandra dos Santos Machado1 (https://orcid.org/0009-0003-8693-9755)

Rebeca Ravena de Abreu Moura da Silva2 (https://orcid.org/0009-0004-4953-8343)

Silvana Teixeira de Araújo Sousa3 (https://orcid.org/0009-0005-7111-3824)

Camila Siqueira Cronemberger Freitas4 (https://orcid.org/0000-0003-2771-5949)

 

1Contato para correspondência. Universidade Estadual do Piauí (Teresina). Piauí, Brasil. [email protected]

2-4Universidade Estadual do Piauí (Teresina). Piauí, Brasil. [email protected], [email protected], [email protected]

 

RESUMO | OBJETIVO: Compartilhar a experiência e os aprendizados adquiridos em um estágio curricular com ênfase em Psicologia Escolar e Educacional. MÉTODO: As ações foram realizadas durante uma semana, no projeto “Semana de Enfrentamento à Violência contra a Mulher”, em uma escola pública de Ensino Médio, utilizando dinâmicas e atividades educativas voltadas à temática da violência de gênero. RESULTADOS: As intervenções promoveram reflexões e conscientização dos alunos sobre a violência de gênero, favorecendo a construção de saberes e o desenvolvimento de atitudes críticas no contexto escolar. DISCUSSÃO: A vivência possibilitou a articulação entre teoria e prática, destacando a atuação da Psicologia Escolar como mediadora de debates sociais relevantes e fortalecedora de espaços educativos comprometidos com os direitos humanos. CONCLUSÃO: A experiência evidenciou a importância da Psicologia Escolar em projetos de cunho social, contribuindo para a formação cidadã e o enfrentamento de problemáticas sociais no ambiente educacional.

 

PALAVRAS-CHAVE: Identidade de Gênero. Psicologia Escolar. Educação em Saúde.

 

RESUMEN | OBJETIVO: Compartir la experiencia y los conocimientos adquiridos durante unas prácticas académicas centradas en la Psicología Escolar y Educativa. MÉTODO: Las actividades se llevaron a cabo durante una semana, en el marco del proyecto “Semana de Enfrentamiento a la Violencia contra la Mujer”, en una escuela pública de Educación Secundaria, utilizando dinámicas y actividades educativas centradas en la temática de la violencia de género. RESULTADOS: Las intervenciones promovieron la reflexión y la concienciación de los alumnos sobre la violencia de género, favoreciendo la construcción de conocimientos y el desarrollo de actitudes críticas en el contexto escolar. DISCUSIÓN: La experiencia permitió la articulación entre teoría y práctica, destacando el papel de la Psicología Escolar como mediadora de debates sociales relevantes y fortalecedora de espacios educativos comprometidos con los derechos humanos. CONCLUSIÓN: La experiencia puso de manifiesto la importancia de la Psicología Escolar en proyectos de carácter social, contribuyendo a la formación ciudadana y a la lucha contra los problemas sociales en el entorno educativo.

 

PALABRAS CLAVE: Identidad de Género. Psicología Escolar. Educación para la Salud.

 

ABSTRACT | OBJECTIVE: To share the experience and lessons learned from an internship with a focus on School and Educational Psychology. METHOD: The actions were carried out over a week in the project “Week of Combating Violence against Women” at a public high school, utilizing dynamics and educational activities focused on the theme of gender violence. RESULTS: The interventions promoted reflections and awareness among students about gender violence, facilitating the construction of knowledge and the development of critical attitudes in the school context. DISCUSSION: The experience enabled the articulation between theory and practice, highlighting the role of School Psychology as a mediator of relevant social debates and a supporter of educational spaces committed to human rights. CONCLUSION: The experience highlighted the importance of School Psychology in social projects, contributing to citizen formation and addressing social issues in the educational environment.

 

KEYWORDS: Gender Identity. School Psychology. Health Education.

                                                

Como citar este artigo: Machado, K. L. S., Silva, R. R. A. M., Sousa, S. T. A., & Freitas, C. S. C. (2026). Conscientização e gênero: um relato de experiência com enfoque na Psicologia Escolar Revista Psicologia, Diversidade e Saúde, 15, e6416. https://doi.org/10.17267/2317-3394rpds.2026.e6416

 

Submetido 14 ago. 2025, Aceito 13 mar. 2026, Publicado 22 maio 2026

Rev. Psicol. Divers. Saúde, Salvador, 2026;15:e6416

https://doi.org/10.17267/2317-3394rpds.2026.e6416

ISSN: 2317-3394

Editoras responsáveis: Mônica Daltro, Marilda Castelar, Martha Castro

 

Título curto: Relato de experiência com enfoque na Psicologia Escolar

Título corto:  Un informe de experiencia centrado en la Psicología Escolar

Short title: An experience report focusing on School Psychology

 

Introdução

 

A crença na superioridade masculina se faz presente na história da humanidade desde os primórdios das civilizações. Define-se o termo machismo como “uma atitude de recusa diante da igualdade de direitos entre o homem e a mulher, com crença autêntica de que o homem é superior à mulher” (Bueno, 2007; Silva & Laport, 2019). A literatura recente destaca que tal machismo se manifesta por meio de estereótipos, discursos de controle sobre o corpo feminino, naturalização da agressividade masculina, divisão sexual do trabalho e invisibilização das mulheres em diversos espaços sociais (Martins et al., 2022).

 

A violência contra a mulher, enquanto expressão extrema dessas desigualdades, representa um grave problema de saúde pública e uma violação dos direitos humanos (Organização Mundial de Saúde [OMS], 2005). Outrossim, é de suma importância entender os tipos de violências que são praticadas contra a mulher, que podem ferir sua integridade física, seu patrimônio, seu psicológico e sua moral, consequentemente limitando sua liberdade e direito de existência plena. Tal violência afasta as mulheres de seus filhos, de suas famílias, empregos e vida social, deprimindo e causando adoecimentos para além do corpo físico (Engel, 2020). Nesse sentido, é importante pontuar também que o grau mais elevado de violência contra mulher é o óbito, sendo as mortes resultantes de conflitos de gênero, denominadas de feminicídios ou femicídios, termo de cunho político e legalmente definido para se referir a esse tipo de morte (Meneghel & Hirakata, 2011).

 

Quanto aos dados, em 2023, foram contabilizadas 1.238.208 mulheres vítimas de algum tipo de violência de gênero, sendo que esse número engloba todas as modalidades de agressão. É importante pontuar também que a taxa de feminicídios cresceu 0,8% em relação a 2022, sendo 1.467 mulheres mortas por razões de gênero, o maior número já registrado desde a publicação da Lei nº 13.104/2015, que tipifica o crime. Assim, foram totalizadas 8.372 tentativas de homicídio de mulheres, uma vez que 33,4% de percentual foram tentativas de feminicídio. Ademais, as agressões em contexto de violência doméstica também sofreram aumento, com 258.941 vítimas mulheres, o que indica um crescimento de 9,8% em relação a 2022. Já o número de mulheres ameaçadas subiu 16,5%, com 778.921 mulheres sendo vitimizadas por tal situação. Por fim, também foi registrado aumento nos casos de violência psicológica, com 33,8%, totalizando assim 38.507 mulheres (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2024).

 

Nessa perspectiva, a Psicologia Escolar e Educacional contribui para a construção de espaços de diálogo, conscientização e crítica social, favorecendo que adolescentes compreendam as estruturas que sustentam a desigualdade de gênero. A adolescência constitui uma fase marcada pela formação identitária, por negociações de papéis sociais e pela internalização de referências culturais, o que torna esse público especialmente relevante para intervenções educativas sobre machismo e violência de gênero. O presente estudo busca compreender de que maneira ações psicoeducativas desenvolvidas em uma escola pública podem contribuir para a conscientização de adolescentes sobre machismo e violência de gênero, considerando a relevância dessas práticas no processo formativo e na promoção de relações mais equitativas.

 

Além disso, tendo em vista o contexto escolar e o tipo de instituição, vale ressaltar a Lei nº 14.164 (2021), que orienta para a inclusão de conteúdos sobre a prevenção da violência contra a mulher nos currículos da educação básica, e instaura a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher, alterando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394, 1996), a fim de incentivar a reflexão de alunos e profissionais da educação sobre a prevenção e o combate à violência contra a mulher (Baptista, 2021). Desse modo, tal projeto está tanto pautado em leis específicas, quanto alinhado com as demandas e necessidades sociais observadas na população brasileira.

 

Em face dessa realidade, a instituição de ensino em que o estágio aconteceu possui muita abertura às práticas sociais e políticas. A temática, muito pertinente na conjuntura hodierna, contou com apoio inclusive da direção do evento, no qual o diretor, como membro de referência, compôs os eventos, com falas e reflexões importantes. O diretor participou ativamente dos eventos, servindo como exemplo para os jovens que ali estudam.

 

Dado o histórico e os dados anteriores, a intervenção da Psicologia deve ser bem estruturada e pautada, compreendendo a violência de gênero sofrida pelas mulheres a partir do viés estrutural, uma vez que tais práticas violentas não são naturais, mas sim aprendidas com o decorrer do tempo e dos contextos. Visto que tais construções são permeadas por diversas nuances, elas podem ser endossadas pelas interseções que ocorrem com a história, como é o caso dos meios políticos, sociais, culturais, étnicos e de classe (Martins et al., 2022).

 

Nesse contexto, vale ressaltar que o enfrentamento à violência é um entrave vivenciado por toda a população mundial. Essa problemática atinge desde crianças, que são acometidas pelas violências sexuais e assédios, a mulheres idosas, que muitas vezes perpetuam-se enfrentando violências psicológicas e morais em seus ambientes domiciliares. Assim, a violência contra a mulher é considerada um problema em nível de saúde pública (Organização Mundial da Saúde, 2005).

 

Assim, este artigo tem como objetivo relatar e analisar uma experiência de intervenção psicoeducativa realizada em uma instituição de ensino público voltada à conscientização sobre violência de gênero. Mais especificamente, pretende-se descrever as ações implementadas durante a “Semana de Enfrentamento à Violência contra a Mulher”, analisar o engajamento e as percepções dos estudantes participantes das atividades e, por fim, relacionar a experiência vivenciada com referenciais teóricos da Psicologia Escolar e da temática de gênero, contribuindo para a discussão sobre práticas preventivas no contexto educacional.

 

Por fim, o entendimento de educação no geral carrega consigo a responsabilidade não só do desenvolvimento do indivíduo que está sob sua tutela, mas também da continuidade que esse terá no mundo. Se, por um lado, a criança ou adolescente deve ser protegido e cuidado para que o mundo não o aniquile, por outro lado, a sociedade também precisa de proteção e regulação, de modo que impeça que essa seja devastada e destruída pelo recém-chegado indivíduo, a cada nova geração que se segue (Arendt, 1990). Assim, a escola é e sempre será apontada como espaço responsável pela formação de crianças e jovens, e objeto de constante avaliação, especialmente  pelas  políticas  de  regulação  externa da sociedade (Bertagna et al., 2020).

 

Método

 

É importante destacar de antemão que o presente trabalho se classifica como um relato de experiência. Essa metodologia provém da descrição específica de um determinado fato ou evento (Casarin & Porto, 2021). Tal formato oferece a possibilidade de apresentar o que foi vivenciado e realizado durante o estágio, objetivando expor tanto as atividades feitas pelas estagiárias, quanto à receptividade e engajamento do público-alvo frente às ações implementadas.

 

Assim, o estágio supervisionado em Psicologia Escolar e Educacional aqui descrito foi executado por duas estagiárias que se fizeram presentes em uma instituição pública de ensino médio de Teresina, capital do Piauí. Esse estágio foi executado nos períodos de 26 de março de 2025 a 18 de junho de 2025, totalizando cerca de 90 horas de trabalho em campo.

 

As estagiárias se dividiram em dois dias da semana específicos, às quartas e sextas, no turno da tarde, para a realização em campo da prática do estágio. Ademais, no que tange ao processo de ensino-aprendizagem, no eixo teórico, eram realizadas semanalmente supervisões, com leituras de materiais específicos e discussões de casos e ideias com a professora orientadora da disciplina, a fim de nortear e enriquecer a atuação em campo.

 

O campo de estágio foi um instituto escolar que oferece nível médio, técnico, integrado e superior, com um corpo discente de aproximadamente 1.170 alunos atualmente. Contudo, as atividades aqui descritas tiveram como alvo principal somente os alunos que estavam cursando o ensino médio e o ensino médio integrado, com idades compreendidas entre 15 e 19 anos.

 

Sobre as ações realizadas, essas foram planejadas previamente pela psicóloga do campus, contando com o apoio de todos da comissão do evento, ou seja, estagiárias, professores, equipe pedagógica e serviço social. Determinou-se primeiro a data do evento e, após isso, cada instância manifestou quais dinâmicas almejavam realizar, o que tornou o evento rico e diversificado.

 

Descrição das ações realizadas

 

Primeiro dia: Lounge Equidade de Gênero e Enfrentamento à Violência.

 

O evento, como pontuado anteriormente, ocorreu no período de uma semana na instituição, contando com stands de Jogos, oficinas, atividades culturais e murais nos corredores, sendo algumas dessas realizadas simultaneamente e outras em horários específicos dos dias, conforme o cronograma do evento. Essas ações foram organizadas previamente pela comissão do evento e contaram com o auxílio das estagiárias de Psicologia em atividades específicas.

 

Ação 1 (Stand “DesMemeFicando”): nesta atividade, as estagiárias mostravam memes impressos que são comumente encontrados nos meios virtuais de comunicação utilizados pelos alunos, logo em seguida era solicitado que eles apontassem qual era a problemática do conteúdo apresentado, e classificassem o meme dentro dos tipos de violência praticadas contra a mulher, denominadas como: violência física, moral, psicológica, sexual, patrimonial e virtual. Os memes utilizados foram previamente escolhidos pelas estagiárias e pela psicóloga supervisora, e incluíam frases como “mulher só serve para lavar a louça”; “mulher no volante, perigo constante”, entre outras. Essa atividade foi realizada em ambos os turnos.

 

Ação 2 (Mural: “Mulheres que inspiram!”): essa ação foi pensada para ser alocada em um dos corredores principais da instituição, a fim de que ficasse exposto durante toda a semana em que ocorreu o evento. As estagiárias prepararam o material com fotos e biografias sucintas de diversas mulheres que são referências na história, política, esportes, cinema e nos cursos técnicos da instituição, como química, vestuário, gastronomia, estradas, engenharia etc. No que tange à essa ação, as estagiárias incluíram nomes como Laura Cardoso, Fernanda Montenegro e Meryl Streep no cinema, bem como Coco Chanel, Frida Kahlo e Angela Davis em temáticas de moda. Além delas, também foram incluídas Marie Curie, Dorothy Crowfoot e Ada Yonath como referências da química, Rachel Carson sobre saneamento ambiental e Grace Murray Hopper como referência na informática.

 

Da área da gastronomia, foram inseridas mulheres como Dominique Crenn e Helena Rizzo. Da engenharia, compuseram o mural os nomes de Edith Clarke e Enedina Marques, assim como Jean Venables e Eithne Wallis como exemplos de mulheres no curso técnico de estradas.

 

Também foram inseridas mulheres importantes para a história dos esportes, como é o caso de Rebeca Andrade, Sarah Menezes, Rosamaria Montibeller e Elizabeth Gomes. Por fim, houve a inserção de uma mulher importante na política do Brasil, a Maria da Penha. Tal mural surgiu com o intuito de referenciar a potência feminina em diversos contextos em que os próprios jovens vão estar inseridos.

 

Ação 3 (Mural: "Rimas com mulheres: um cordel para pensar"): essa atividade foi executada especificamente pelo professor de música da instituição, tendo como alvo os adolescentes. O mural foi construído com rimas em cordel e imagens e, logo após, foi realizada uma análise do que estava sendo exposto por parte dos alunos. Assim, o professor realizou uma de suas aulas da semana utilizando o mural como base de conteúdo, com leitura do material com professor e alunos, a fim de proporcionar um momento de meditação acerca da temática.

 

Ação 4 (Mural: “Escrevendo uma nova história: informar para libertar”): essa atividade foi idealizada pelo serviço de Psicologia, contando com a participação direta das estagiárias, em consonância com a psicóloga do campus. Assim, essas realizaram a criação de um mural com diversos componentes sobre o tema da violência contra a mulher. Foram adicionadas informações sobre números de serviços a serem contatados em situações de emergência e um “violentômetro”, imagem ilustrativa associada a um termômetro, que visa informar mulheres sobre quando entrar em estado de alerta, para identificar se está vivendo uma situação problemática ou de violência no seu cotidiano. Esse mural objetivou tanto informar como ser um apoio concreto para as mulheres do campus.

 

Ação 5 (Oficina “Mulheres que inspiram… na História”): essa atividade foi realizada pela professora de história da instituição. Ela levou diversas imagens de mulheres da história que são referências em diversos feitos e inventos na sociedade. Tal momento buscou proporcionar, aos adolescentes, conhecimento e informacionalidade acerca dos feitos de mulheres do passado.

 

Ação 6 (Roda de conversa “Não vá pensando que eu sou sua”): nessa roda de conversa, a psicóloga do campus realizou um momento de conscientização e trocas, a fim de fomentar debates dentro de tal temática. Assim foram apresentadas letras de músicas que poderiam ser problematizadas, como por exemplo: “Nada por mim" de Herbert Viana e Paula Toller (Uma letra que fala abertamente de um relacionamento possessivo) “Dom de iludir” de Caetano Veloso (Fala que a mulher precisa mentir) e “Só pro meu prazer” de Leoni (A idealização de uma pessoa para seu prazer). Desse modo, foi discutido o significado dessas canções para as mulheres que estavam presentes, em formato de roda de conversa.

 

Ação 7 (Roda de conversa “O trabalho feminino nas cozinhas e a violência de gênero”): essa atividade foi realizada pelos docentes do curso de gastronomia, especificamente para os alunos do curso, a fim de refletir e discutir sobre o machismo presente na profissão de chef. A roda de conversa justifica-se pois, apesar da tarefa doméstica de cozinhar estar tradicionalmente e culturalmente, em sua maioria, restringida ao público do gênero feminino, grande parte dos profissionais da gastronomia reconhecidos e bem avaliados são do sexo masculino.

 

Ação 8 (Apresentação do boletim “Elas vivem: um caminho de luta” do Observatório da Segurança do Piauí - NUPEC-UFPI/Rede de Observatórios de Segurança): essa ação teve como objetivo apresentar dados do observatório de segurança do estado do Piauí, em parceria com uma pesquisadora docente da Universidade Federal do Piauí, a fim de debater sobre o crescente aumento do número de casos de violência de gênero no Piauí e seus respectivos impactos na sociedade.

 

Ação 9 (Documentário: O silêncio dos homens): nesta ação, foi exibido em um dos espaços de acesso comum de discentes e docentes o documentário intitulado O silêncio dos homens. Tal atividade teve como objetivo debater sobre as construções sociais da masculinidade e os impactos do machismo tanto na vida das mulheres quanto, especialmente nesse caso, na vida dos próprios homens. O material audiovisual abordou temáticas importantes como: repressão masculina diante de emoções e sentimentos, violência de gênero, saúde mental dos homens, o significado de ser homem em uma sociedade machista e tradicional.

 

Ação 10 (Stands da Secretaria das Mulheres e da Casa da Mulher Brasileira): o evento contou com a participação da Secretaria de Estado das Mulheres do Piauí (SEMPI), instituição que tem como missão planejar, coordenar, executar e articular as políticas públicas para as mulheres dentro do estado do Piauí, além de também orientar a administração pública na formulação, coordenação e articulação de políticas para as mulheres (SEMPI, 2022). Ademais, a Casa da Mulher Brasileira também se fez presente no evento, tal instituição é um dos eixos do “Programa Mulher Viver sem Violência”, e tem como objetivo principal facilitar o acesso aos serviços especializados de assistência, para garantir condições de enfrentamento à violência, o empoderamento da mulher e sua autonomia econômica (Ministério das Mulheres, 2023). Ambas as instituições se fizeram presentes, enviando profissionais atuantes, que levaram materiais de divulgação (panfletos, cartilhas, leques, chaveiros e outros materiais) para distribuição e explicaram pontos importantes sobre a temática do evento, em um dos espaços de convivência estratégico do campus.

 

Ação 11 (Stand Jogo “Cancelados ou de boa?”): foi realizada a atividade no Stand de Jogos, com o título: “Cancelados ou de boa?”. Tal intervenção trouxe situações problemáticas e de violência de gênero, que podem ser vivenciadas no cotidiano, em formato de cards de papel (Exemplo: “Deu chocolate no dia das mulheres”, “Fez piada sobre ‘feminista não se depilar’” e “Disse que ‘menina que fica com muitos é rodada’”), e foi solicitado que os alunos lessem as situações descritas para que o grupo escutasse, e logo em seguida esses eram orientados a refletir se a situação era questionável ou socialmente aceitável, conforme o julgamento deles.

 

Outras frases foram impressas para a realização da ação, como: “Disse que a menina só tirou nota alta porque o professor tem crush nela”, “Não deixou a irmã sair de shorts porque ‘vai chamar atenção’”, “Interrompeu a colega na roda porque sabia mais sobre o assunto”, “Chamou de ‘exagero’ quando uma amiga reclamou de assédio na rua”, “Comentou ‘tá pedindo’ na foto de uma colega”, “Ficou bravo porque a namorada postou foto de biquíni no Instagram” e “Zoou o amigo por dizer que quer casar e ser pai”.

 

Algumas frases tinham conteúdos positivos, como: “O filho organizou a casa antes da mãe chegar do trabalho”, “Elogiou a roupa da sua colega de turma”, “Deu carona para sua irmã mais nova”, “Ajudou uma colega emprestando seu casaco sem cobrar nada em troca” e “Foi gentil com a namorada porque ela estava de TPM”. Essas tinham o objetivo de reforçar comportamentos saudáveis.

 

Ação 12 (Aula de Defesa Pessoal): por fim, houve ainda aulas de defesa pessoal com um professor ministrante do campus, sendo oferecidas para as discentes e servidoras da instituição. Aspirando proporcionar maior segurança e recursos para o público feminino no caso de situações de emergência, houve a iniciativa de, em três dias da semana, oferecer às alunas e funcionárias aulas de defesa pessoal.

 

Resultados e discussão

 

Sob esse prisma, o estágio, que se desenrolou em uma escola pública na capital do Piauí foi realizado com alunos do ensino médio e ensino médio integrado. Com relação ao desempenho das ações relatadas, julga-se que essas estão conforme a temática e que foram coerentes com a proposta do projeto. Já sobre o engajamento, foi satisfatório em todas as atividades.

 

Ação 1 (Stand “DesMemeFicando”): nessa ação, o engajamento dos adolescentes foi classificado como excelente, sendo observado que houve participação regular por parte dos alunos e curiosidade para depreender os tipos de violência demonstrados nas imagens. Os discentes tiveram a oportunidade de refletir e debater entre eles, sobre os erros contidos naquelas imagens, e pontuar quais impactos aquele tipo de “piada” poderia causar nas vivências de pessoas do gênero feminino.

 

Ainda sobre a primeira ação, na realização dela, uma idosa, que está inserida em um curso técnico da instituição, aproximou-se e relatou as violências que sofreu com seu filho, que é usuário de drogas, e no período do evento se encontrava preso. Com tal demanda e sensibilidade que a discente sentiu, as estagiárias se dispuseram em um momento de acolhimento e escuta ativa para com essa idosa.

 

Ação 2 (Mural: “Mulheres que inspiram!”): em tal atividade, esse mural ficou disponível durante a “Semana de Enfrentamento à Violência contra a Mulher”, com o intuito de incentivar reflexões e debates sobre a invisibilidade e exclusão feminina na história das civilizações, e a importância de reconhecer sua presença e influência direta em diversos setores e áreas da sociedade. Os alunos, de forma ampla, sentiram-se inspirados pela história e experiências superadas por tais mulheres, fomentando a superação de circunstâncias negativas e aspiração para vivências mais funcionais e assertivas.

 

Ação 3 (Mural: "Rimas com mulheres: um cordel para pensar"): para a finalização dessa dinâmica, os alunos fizeram um resumo das percepções que tiveram acerca do mural, para compor a avaliação mensal na matéria referida. Os resultados obtidos no resumo expresso pelo professor, relatam uma sensibilidade no pensar por parte dos jovens, que experienciaram um novo olhar, unindo ação social com arte. Além disso, foi um espaço confortável e reflexivo para eles.

 

Ação 4 (Mural: “Escrevendo uma nova história: informar para libertar”): esse mural, realizado pelas estagiárias, cumpriu com os objetivos estipulados, de ser um espaço de informacionalidade e embasamento. Pode-se proporcionar, aos jovens e adultos da instituição, informações importantes na potencialização dos conhecimentos acerca de como ser agente propulsor de meios de evitar e atenuar a violência contra a mulher.

 

Ação 5 (Oficina “Mulheres que inspiram… na História”): tal dinâmica, realizada dentro das salas de aula, possibilitou que os alunos possuíssem maior reflexividade, uma vez que a professora realizou a explicação dos feitos das mulheres inspiradoras na história, proporcionando maior debate e discussão por parte dos discentes, por se tratar de um ambiente seguro. Dessa forma, compreende-se a ação com resultados positivos de psicoeducação.

 

Ação 6 (Roda de conversa “Não vá pensando que eu sou sua”): como forma de inserir os alunos como sujeitos ativos nesse processo de conscientização, essa ação foi importante para que possuíssem momentos reflexivos de compreender frases e músicas que instigam a estruturação do machismo na sociedade, comportando-se como agentes de transformação no que tange ao consumo de conteúdos misóginos em músicas. Como resultado, observou-se abertura e excelente engajamento por parte deles.

 

Ação 7 (Roda de conversa “O trabalho feminino nas cozinhas e a violência de gênero”): para tal dinâmica, foi realizado, em formato de roda de conversa, o cerne desse assunto importante, que é a presença do homem em ambientes considerados “femininos”. Foi muito interessante analisar as argumentações dos alunos, que trouxeram reflexões por vezes ambíguas, porém, com a discussão em grupo, possuiu-se um olhar mais flexível e abrangente das possibilidades do fazer equitativo nos ambientes.

 

Ação 8 (Apresentação do boletim “Elas vivem: um caminho de luta” do Observatório da Segurança do Piauí - NUPEC-UFPI/Rede de Observatórios de Segurança): os dados apresentados em tal atividade causaram surpresa e até revolta em alguns dos presentes, além disso, também facilitaram o processo de debate e discussões críticas, sobre o atual sistema de segurança do estado e sobre o que pode ser mudado ou ampliado.

 

Ação 9 (Documentário: O silêncio dos homens): na apresentação desse documentário, compreendeu-se um espaço seguro e espontâneo para que houvesse uma reflexão sobre o fazer dos homens na contemporaneidade. Para os próprios homens, foi imprescindível para que houvesse maior flexibilidade em suas cognições. Por fim, tal material também elaborou propostas de possíveis caminhos para quebrar tal silêncio e promover uma expressão de gênero masculino saudável, livre e empática.

 

Ação 10 (Stands da Secretaria das Mulheres e da Casa da Mulher Brasileira): tal ação, realizada no último dia da “Semana de Enfrentamento à Violência contra a Mulher”, contou com palestra psicoeducativa, por parte das profissionais da Secretaria, fomentando informacionalidade e embasamento para alunos e funcionários. Nessa ação, houve uma maior divisão de público, em que algumas jovens e adultas estavam presentes realizando a escuta, e diversos meninos se dirigiram ao campo de futebol da escola e jogaram, demonstrando que em determinados momentos, não possuíam interesse em consumir tais informações. Nesse momento, houve também a realização de uma fala do diretor da instituição, reafirmando a relevância do projeto.

 

Ação 11 (Stand Jogo “Cancelados ou de boa?”): quanto ao engajamento em tal atividade, esse foi considerado satisfatório, tendo contado com as respostas e reflexões de diversos discentes durante a aplicação, visto que alguns desses solicitaram às estagiárias que participassem da atividade mais de uma vez e para ajudar os colegas que estavam em dúvida sobre o que dizer ao julgar as situações detalhadas.

 

Alguns excertos geraram, também, identificação para com alguns discentes. Uma aluna relatou, ali, que alguns colegas a julgaram, pois ela defende e elogia um professor, e era julgada por tal ato. Dessa forma, foi importante dialogar com os demais alunos sobre o respeito no ambiente educacional.

 

 Os excertos que traziam feitos positivos, por outro lado, recebiam muitos elogios e reflexões positivas por parte das discentes. Observa-se, assim, que todos possuem compreensão das ações empáticas e positivas que devem ser cultivadas no cotidiano.

 

Em tal contexto, algumas imagens deixavam os jovens confusos, como se observou em “Interrompeu a colega na roda porque sabia mais sobre o assunto” e “Não deixou a irmã sair de shorts porque ‘vai chamar atenção”. Os alunos achavam que era ideal interromper a colega para esclarecer com uma informação mais clara, bem como o irmão não permitir a saída da irmã de short curto somente como um ato de proteção, e não devido a problemática do machismo.

 

Em alguns excertos, houve unanimidade de meninos e meninas, mas ainda assim debatiam para ampliar o contexto da frase demonstrada, como é o caso de “Ana notou que a amiga estava triste, a chamou para conversar e a amiga desabafou da separação dos pais” e “Luísa ficou cuidando do copo de Júlia enquanto ela ia ao banheiro em uma festa”. Assim, tentou-se disseminar a importância da rede de apoio feminina em diversos contextos.

 

Também houve muito debate em frases que a priori, denotam possuir uma mesma vertente. Contudo, os jovens expandiram a situação “Falou que a amiga estava muito gorda”; “O ex enviou fotos íntimas da ex no grupo de amigos” e “No rodízio, o amigo insistiu para a amiga comer cada vez mais pedaços, até que vomitasse”. Ocorreu até mesmo identificação para com a última frase, porém sendo referido por um menino.

 

Em face disso, os excertos que culminaram com uma maior discussão entre os jovens foram os que se interligam a relacionamentos, como ocorreu em “O namorado sai toda semana, mas nunca leva a namorada” e em “No intervalo, José joga vôlei com as meninas. Seus amigos costumam perguntar quem ele já pegou”. Os adolescentes levantaram hipóteses positivas e negativas para ambas as situações, e gerou entre eles um engajamento alto nos referidos temas.

 

As frases que objetificam o corpo feminino foram unanimemente canceladas, sobretudo pelas adolescentes. No excerto “Ficou bravo porque a namorada postou foto de biquíni no Instagram”, as garotas comentaram que tudo bem o namorado dar uma sugestão, mas a proibição não é correta. Outras frases, também, causam muito incômodo de forma geral em todos os adolescentes, como é o caso da “Chamou de ‘exagero’ quando uma amiga reclamou de assédio na rua.”

 

Para além disso, na realização da atividade “Cancelados ou de boa?” Uma das alunas do segundo ano do ensino médio, enquanto estava ao redor das estagiárias acompanhando o decorrer das explicações, sentiu-se à vontade para compartilhar uma situação de violência contra a mulher sofrida por sua tia. Foi um momento de vulnerabilidade, em que as estagiárias a escutaram e forneceram psicoeducação, de como a discente pode instruir a tia.

 

Ademais, nessa dinâmica, um dos alunos também estudante do segundo ano do ensino médio participou ativamente da ação. Ele recebeu a ficha de “A avó chamou as netas para cozinhar, mas não chamou o neto Felipe”. Nessa frase, pode-se observar o machismo estruturado, mas o aluno abordou que talvez o menino não quisesse cozinhar. Foi de fundamental importância dialogar com o aluno, reiterando que, por vezes, as meninas também não querem realizar afazeres domésticos, mas são socialmente pressionadas para isso.

 

Ação 12 (Aula de Defesa Pessoal):  De tal modo, essa ação das aulas de defesa pessoal obteve um retorno muito positivo, abrangendo alunas que, em um mesmo dia, participaram das aulas tanto no turno matutino quanto vespertino, relatando que foram aprendizados muito pertinentes. As discentes se sentiram seguras com esse olhar voltado para a defesa delas, e abrangidas em mais contextos, compreendendo meios de como lidar em uma possível situação de ameaça.

 

Todo o planejamento das ações supracitadas na Semana de Enfrentamento contou com a colaboração de uma interdisciplinaridade da equipe, uma vez que houve o auxílio de todo o corpo administrativo e educacional, a fim de apoiar a causa e potencializar os resultados. Como um incentivo, nos principais dias dos eventos, os funcionários iam com uma roupa na paleta de cor roxa, que versa sobre a urgência do fortalecimento psicológico ante a violência de gênero (Labiak et al., 2020).

 

Nesse sentido, é importante também pontuar sobre a condição financeira dos alunos, debate que apareceu em segundo plano em alguns momentos da realização das atividades. Grande parte desses alunos não estão em contextos de vulnerabilidade social, relatando com certa frequência, sobre as oportunidades que possuem e o quanto desejam alcançar, no futuro, condições ainda mais elevadas. Assim, as intervenções apresentadas alcançaram diferentes níveis socioeconômicos e públicos.

 

Para além disso, a realização da “Semana de Enfrentamento à Violência contra a Mulher” nas escolas é um projeto institucional fomentado pela Lei nº 14.164 (2021), que altera a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), a lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Tal política pública é implementada, pois a partir da educação o processo de emancipação é estimulado, e desse modo o sujeito passa a se posicionar como um agente da sociedade, e pode, então, ser um executor dos direitos de igualdade e combate a violência.

 

Nesse ínterim, a organização do projeto foi coordenada pela psicóloga do campus, contendo como comissão outros funcionários e as estagiárias. O planejamento se deu a partir dos horários disponíveis das atividades e da busca por parte da equipe para a realização. Desse modo, professores e equipe administrativa buscavam realizar com os alunos as dinâmicas que mais cabiam às suas práticas. Havia, por parte da comissão, reuniões para abordar sobre como as dinâmicas seriam realizadas, mas as estagiárias não estavam presentes em todas devido a carga horária vigente nas demais atividades universitárias.

 

Sob essa perspectiva, as atividades realizadas por toda a equipe se desenvolveram de maneira interativa, com metodologias que visavam a reflexão e o protagonismo dos alunos. Ao fim da semana, contou-se com o apoio governamental de órgãos de combate à violência contra a mulher, e isso fomentou, para os alunos, espaço de compartilhamento de experiências e relatos significativos deles, e isso levou a momentos de escuta e acolhimento.

 

Diante desse cenário, as ações realizadas nesta semana dividiram-se entre os turnos matutino e vespertino, e em dias específicos ocorreram de forma concomitante. Assim, realizou-se intervenções com caráter dinâmico, como exibição de vídeos educativos, rodas de conversa, quiz, debates, cordéis, aulas de defesa pessoal para as alunas, momentos de acolhimento e momento cultural com musicalidade. As temáticas versavam sobre discussões de machismo estrutural, relacionamento abusivo, psicoeducação e momentos reflexivos.

 

Nesse sentido, as instituições de ensino, sobretudo, são meios fundamentais para potencializar os movimentos políticos e sociais do país. Segundo Paulo Freire (1996), é imprescindível que a escola se comprometa com a formação crítica dos alunos, pois assim se entrelaçam com a realidade cultural, histórica e social. Assim, esse evento contribui para defender a educação como prática de liberdade e fortalecimento da reflexão crítica.

 

Nesse contexto, a “Semana de Enfrentamento à Violência contra a Mulher” pode ser observada como propulsor para a desnaturalização de comportamentos machistas. Sob essa ótica, bell hooks (2013) afirma que a naturalização desse tipo de violência é sustentada pela dinâmica patriarcal cultural, e que o meio de enfrentamento dessa cultura é por intermédio de ações educativas politizadas, que reflitam em meditações permanentes e revolucionárias.

 

Em face do exposto, alguns desafios também estiveram presentes na prática da “Semana de Enfrentamento à Violência contra a Mulher”. Acentua-se a resistência de alunos da instituição, principalmente do sexo masculino, que durante as atividades se mantiveram distantes. Ainda assim, na efetivação de algumas ações, alunos utilizavam como metodologia a brincadeira e o discurso cômico, não compreendendo a seriedade do tema. Esses aspectos reforçam a necessidade de abordagens contínuas e da formação crítica nas escolas.

 

Sobre tais intervenções, observa-se que a vivência desse estágio possibilitou, diretamente, intervenções para com os estudantes. Contudo, para além disso, houve um aprofundamento na prática da Psicologia Escolar e Educacional, vivenciando os desafios concretos da realidade desse campo. Essa experiência teve uma importância no compromisso ético e político da Psicologia, e fomentou a transformação social e a luta por justiça de gênero. Para as estagiárias, essa experiência caracterizou uma formação ética e comprometida com os direitos humanos.

 

Considerações finais

 

Desse modo, a proposta do projeto da “Semana de Enfrentamento à Violência contra a Mulher” partiu da necessidade de ampliar o diálogo com os adolescentes da instituição acerca das múltiplas formas da violência de gênero. Sob tal ótica, o projeto traz à tona a efetivação em reconhecer o ambiente escolar como um espaço fundamental na formação de valores, construção identitária e no desenvolvimento de práticas sociais transformadoras. Nesse sentido, é importante pontuar que, anteriormente, a educação no ambiente escolar era concebida como agente responsável pela formação de recursos humanos para o desenvolvimento econômico e social, porém, nos últimos anos o entendimento de que tais instituições possuem função social, para além da preparação de mão de obra, tem sido elaborado e aplicado em tal ambiente (Tedesco, 2012/2015).

 

Sobre as atividades interativas aplicadas, buscou-se o favorecimento da conscientização dos jovens, dentro do contexto, quanto aos mecanismos sociais que perpetuam a violência contra a mulher, bem como a estimulação de posturas mais críticas sobre eles. Cabe ressaltar que, durante as ações do projeto, foi possível observar um impacto significativo acerca das discussões promovidas. Houve, por parte dos jovens, uma adesão considerável na atividade designada para diferenciar os tipos de violência física, psicológica, moral, patrimonial, sexual e virtual. Até mesmo nos dias seguintes à atividade, os jovens paravam as estagiárias para conversar sobre o tema.

 

A escuta ativa e postura interativa adotada por toda a equipe multiprofissional que compôs a comissão do evento proporcionou, aos discentes, a criação de um espaço seguro para que os adolescentes expressassem suas dúvidas, experiências, posicionamentos e ideais. Essas ações reiteram a importância de abordar temas relacionados aos Direitos Humanos no ambiente escolar devido a todo o potencial formador que a escola possui.

 

A experiência do estágio supervisionado em Psicologia Escolar e Educacional reitera o compromisso social e ético da Psicologia, pois fomenta a construção da justiça e equidade. Assim, a atuação nesse campo não se restringiu somente à promoção informativa, mas também às mediações afetivas, propiciando reflexões sobre comportamentos e práticas que são normalizados cotidianamente.

 

Diante dos resultados, a sistematização e divulgação de projetos similares ao descrito é importante, primeiramente para o contexto escolar, tendo em vista que as instituições de ensino são formadoras de opinião e personalidade, e também para o comprometimento social. Para além disso, também é necessário que haja investimentos na formação continuada, por parte dos profissionais da equipe escolar, pois assim é possível ampliar as possibilidades de intervenções, abrangendo os públicos que necessitam de tais ações, para além do ambiente escolar.

 

Contribuições das autoras

 

As autoras declararam ter feito contribuições substanciais ao trabalho em termos da concepção ou desenho da pesquisa; da aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho; e da redação ou revisão crítica de conteúdo intelectual relevante. Todas as autoras aprovaram a versão final a ser publicada e concordaram em assumir a responsabilidade pública por todos os aspectos do estudo.

 

Conflitos de interesses

 

Nenhum conflito financeiro, legal ou político envolvendo terceiros (governo, empresas e fundações privadas, etc.) foi declarado para nenhum aspecto do trabalho submetido (incluindo, mas não se limitando a subvenções e financiamentos, participação em conselho consultivo, desenho de estudo, preparação de manuscrito, análise estatística, etc.).

 

Indexadores

 

A Revista Psicologia, Diversidade e Saúde é indexada no DOAJ, EBSCO, Latindex – Catálogo 2.0 e LILACS.

 

Referências

 

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Bertagna, R. H., De Sordi, M. R. L., Almeida, L. C., & Lara, R. S. B. (2020). Avaliação da qualidade social da escola pública: delineamentos de uma proposta referenciada na formação humana. Políticas Educativas – PolEd, 13(2), 63-86. https://seer.ufrgs.br/index.php/Poled/article/view/107364

 

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hooks, b. (2013). Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. WMF Martins Fontes.

 

Labiak, F. P., Novais, M. M., & Silva, G. N. (2020). Papo reto sobre violência contra a mulher: relato de experiência de uma prática de extensão universitária. Extensio: Revista Eletrônica de Extensão, 17(36), 145–158. https://doi.org/10.5007/1807-0221.2020v17n36p145

 

Lei n. 13.104, de 9 de março de 2015. (2015). Altera o art. 121 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, para prever o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio, e o art. 1º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990, para incluir o feminicídio no rol dos crimes hediondos. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13104.htm

 

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