Relato de experiência
Articulação entre a extensão curricular e a formação de estudantes de medicina / Vínculo entre la extensión curricular y la formación de estudiantes de medicina / Integration between curricular extension and medical students' training
Maria Fernanda Carvalho Martins Moreira1 (https://orcid.org/0009-0006-3032-1704)
Marina Alves de Carvalho2 (https://orcid.org/0009-0003-3595-6264)
Maria Eduarda de Almeida Oliveira3 (https://orcid.org/0009-0005-5807-3813)
Clara Carvalho Dantas Muniz4 (https://orcid.org/0009-0008-8496-7214)
Antônio Felipe Rocha Brandão5 (https://orcid.org/0009-0000-9466-493X)
Muriele Mascarenhas Lima6 (https://orcid.org/0009-0006-1407-1987)
1Contato para correspondência. Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (Salvador). Bahia, Brasil. [email protected]
2-6Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (Salvador). Bahia, Brasil. [email protected], [email protected], [email protected], [email protected], [email protected]
RESUMO | INTRODUÇÃO: A extensão universitária é um processo científico, educativo e cultural que viabiliza a relação entre a universidade e a sociedade. Essa atuação envolve os pilares universitários de ensino, pesquisa e extensão. Desse modo, foi regularizada a Resolução CNE/CES nº 7 que assegura pelo menos 10% dos créditos curriculares para a extensão. OBJETIVO: Relatar a experiência da extensão curricular na formação dos estudantes de medicina. MÉTODOS: Trata-se de uma pesquisa qualitativa sobre um relato de experiência das atividades aplicadas em uma escola municipal, de fevereiro a junho de 2024, por graduandos em medicina. RESULTADOS: As atividades foram desenvolvidas em quatro etapas com crianças de sete anos. Utilizou-se temáticas relacionadas à promoção da saúde. A vivência possibilitou aos estudantes de graduação exercitarem o diálogo qualificado, o planejamento de estratégias e a escuta ativa. DISCUSSÃO: A abordagem educacional direcionada a um público infantil demandou habilidades que transcenderam o conhecimento técnico de ensino, tendo sido essencial o ato de cuidar e de entender o sujeito a partir de sua completude. No grande tema saúde, foram selecionadas áreas voltadas à higiene, alimentação e lazer, essas que viabilizaram a atenção ao ato de cuidar no campo de interação. As ações tiveram papel crucial na reafirmação do princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. CONCLUSÃO: A prática extensionista despertou nos acadêmicos um desejo mais humanizado de fazer medicina, centrado na escuta ativa e no protagonismo do outro. É essa troca que permite e ressalta o ensinar como um processo horizontal.
PALAVRAS-CHAVE: Estudantes Universitários. Medicina. Programas Educacionais. Saúde.
RESUMEN | INTRODUCCIÓN: La extensión universitaria es un proceso científico, educativo y cultural que posibilita la relación entre la universidad y la sociedad. Esta acción involucra los pilares universitarios de la enseñanza, la investigación y la extensión. Por ello, se formalizó la Resolución CNE/CES no 7, que garantiza al menos el 10% de los créditos curriculares destinados a la extensión. OBJETIVO: Relatar la experiencia de la extensión curricular en la formación de estudiantes de medicina. MÉTODOS: Se trata de una investigación cualitativa basada en el relato de experiencia de las actividades realizadas en una escuela municipal entre febrero y junio de 2024 por estudiantes de medicina. RESULTADOS: Las actividades se desarrollaron en cuatro etapas con niños de siete años, abordando temas relacionados con la promoción de la salud. La vivencia permitió a los estudiantes practicar el diálogo calificado, la planificación de estrategias y la escucha activa. DISCUSIÓN: La metodología educativa dirigida al público infantil requirió habilidades que fueron más allá del conocimiento técnico de la enseñanza, siendo fundamental el acto de cuidar y comprender al sujeto en su totalidad. Dentro del tema amplio de la salud, se seleccionaron áreas como la higiene, la alimentación y el ocio, favoreciendo la atención al cuidado en el contexto de la interacción. Las acciones desempeñaron un papel crucial en la reafirmación del principio de la indisolubilidad entre enseñanza, investigación y extensión. CONCLUSIÓN: La práctica extensionista despertó en los estudiantes un deseo más humanizado de ejercer la medicina, centrado en la escucha activa y en el protagonismo del otro. Este intercambio permite y destaca la enseñanza como un proceso horizontal.
PALABRAS CLAVE: Estudiantes Universitarios. Medicina. Programas Educativos. Salud.
ABSTRACT | INTRODUCTION: University extension is a scientific, educational, and cultural process that fosters the relationship between university and society. This action involves the university pillars of teaching, research, and extension. Accordingly, Ruling CNE/CES No. 7 was established, ensuring that at least 10% of curricular credit is dedicated to extension activities. OBJECTIVE: To report on the experience of curricular extension in the training of medical students. METHODS: This is a qualitative study based on an experience report of activities carried out at a municipal school from February to June 2024 by medical undergraduates. RESULTS: The activities were developed in four stages with seven-year-old children, addressing health promotion topics. The experience enabled the undergraduate students to practice meaningful dialogue, strategic planning, and active listening. DISCUSSION: The educational approach aimed at children required skills beyond technical teaching knowledge, emphasizing the importance of care and understanding the individual as a whole. Within the broad theme of health, areas such as hygiene, nutrition, and leisure were selected, promoting a caring interaction. The activities played a crucial role in reaffirming the principle of the inseparability of teaching, research, and extension. CONCLUSION: The extension practice awakened in students a more humanized desire to practice medicine, centered on active listening and valuing the other’s role. This exchange highlights teaching as a horizontal process.
KEYWORDS: University Students. Medicine. Educational Programs. Health.
Como citar este artigo: Moreira, M. F. C. M., Carvalho, M. A., Oliveira, M. E. A., Muniz, C. C. D., Brandão, A. F. R., & Lima, M. M. (2026). Articulação entre a extensão curricular e a formação de estudantes de medicina. Revista Psicologia, Diversidade e Saúde, 15, e6077. https://doi.org/10.17267/2317-3394rpds.2026.e6077
Submetido 2 jan. 2025, Aceito 2 mar. 2026, Publicado 6 abr. 2026
Rev. Psicol. Divers. Saúde, Salvador, 2026;15:e6077
https://doi.org/10.17267/2317-3394rpds.2026.e6077
ISSN: 2317-3394
Editoras responsáveis: Mônica Daltro, Marilda Castelar , Martha Castro
Introdução
Segundo o Plano Nacional de Extensão Acadêmica, a extensão universitária é um processo científico, educativo e cultural que articula o ensino e a pesquisa, viabilizando uma relação de transformação entre universidade e sociedade. Isso acontece com uma troca entre os saberes populares e a cientificidade universitária, permitindo uma visão integral da sociedade com a escuta ativa, a produção de conhecimento, por meio do contraste da teoria para prática, e o maior acesso da população para o saber científico (Oliveira et al., 2021). Ademais, há um grande papel de transformação social em potencial produzida pelo pensamento crítico e autonomia desenvolvida (Santana et al., 2021).
Essa atuação envolve diversas áreas do conhecimento e faz parte dos pilares universitários: a tríade ensino-pesquisa-extensão (Santana et al., 2021). Por isso, as atividades extensionistas são de extrema importância com seu papel formador para o ganho de competências e habilidades na vida acadêmica. Essa relevância foi regulamentada pela curricularização da extensão universitária na Resolução CNE/CES no 7, de 18 de dezembro de 2018, com meta de assegurar pelo menos 10% dos créditos curriculares para tais ações, como no curso de Medicina. As diretrizes instituem uma abordagem inovadora ao reconhecer a extensão como um componente essencial que promove uma formação integral, cidadã e interdisciplinar, mas a implementação efetiva dessas normas pode enfrentar obstáculos por necessitar de uma revisão curricular institucional e capacitação docente para essa prática.
O Fórum de Pró-reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras (FORPROEX) publicou, em 2019, um mapeamento da inserção da extensão nos currículos das instituições públicas de educação superior brasileiras, o qual demonstrou nesse ano que 9% não tinha iniciado e 63% ainda estava em discussão (Coimbra, 2019). Em 2024, esse órgão realizou o “Raio-x da extensão”, o qual não contou com um relatório final do país, mas houve disponibilização de alguns diagnósticos de instituições específicas que, por exemplo, possui ainda 88% de seus cursos com a curricularização da extensão concluída, mesmo que o prazo de conclusão para essa inserção tenha sido para dezembro de 2021 pela resolução (Olegário, 2025).
A extensão da universidade de Medicina pode ser realizada por meio da educação popular em saúde. Essa educação é uma forma humanizada que pela reflexão crítica visualiza o homem como integral e autônomo, o que é visto no entendimento de como o indivíduo possui seus próprios conhecimentos e ideais que devem ser considerados (Brito et al., 2024). Além disso, precisa-se visualizar o ser humano como alguém pertencente a uma realidade para entender os efeitos dos determinantes sociais na saúde, seja para ampliar o entendimento da população daquele território quanto proporcionar ações adequadas para aquele grupo (Cruz et al., 2024). Essa estratégia para enfrentar questões de saúde deve ser sempre baseada na participação e na troca de saberes de forma horizontal e não vertical, na qual há uma superioridade de uma das partes. Todos esses fatores devem ser levados em conta para o funcionamento da prática extensionista.
Um dos territórios de aplicabilidade do projeto de extensão baseada na educação popular em saúde é a escola, na qual podem ser feitas atividades propostas pelo grupo universitário com os estudantes e até a comunidade da região. A faixa etária entre criança e adolescente constitui uma janela de oportunidade de reconstrução e mudança já que, por meio de dinâmicas lúdicas e diálogo, é possível estabelecer um melhor ou novo entendimento sobre a saúde, seja no que tange quais práticas são ideais, seja nas consequências de hábitos não saudáveis (Ribeiro et al., 2023).
A exposição de experiências e percepções dos estudantes em pesquisas possibilita uma integração entre a teoria proposta e prática que engloba a realidade universitária e da comunidade envolvida, o que é importante para reflexão e consolidação de políticas de integração ensino-serviço-comunidade, como na extensão curricular (Silveira et al., 2020). Em oposição ao método extracurricular, a curricularização extensionista é até então pouco abordada e relatada na literatura, de forma que há uma falha para explorar esses impactos na formação dos estudantes de medicina e na promoção à saúde. Essa lacuna científica se estende principalmente no que diz respeito a uma abordagem em educação popular em saúde, por exemplo da atuação em escolas com crianças, a qual se afasta de uma perspectiva mais tradicional como na realização em unidades básicas de saúde com os pacientes, na qual o conhecimento é transmitido verticalmente.
Tendo em vista tudo o que foi abordado, esse relato de experiência de extensão curricular tem como objetivo relatar a importância da extensão curricular na formação dos estudantes de medicina.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa que tem como base metodológica um relato de experiência com sua dinâmica aplicada de fevereiro a junho de 2024, a partir da prática de um grupo de acadêmicos de medicina de uma faculdade privada no município de Salvador, este localizado no estado da Bahia, região nordeste do Brasil. As ações foram desenvolvidas em uma escola municipal da cidade da capital baiana com crianças do 5o ano do ensino fundamental, ou seja, na faixa etária dos sete anos de idade. A pesquisa buscou essencialmente responder à pergunta: “Qual a importância da extensão curricular na formação acadêmica dos estudantes de medicina?”.
Os estudantes se organizaram na participação da extensão através de materiais disponibilizados pela universidade, sob a supervisão de um preceptor, e seu campo de atuação já tinha sido definida pela coordenação da extensão. Foi utilizado pelos universitários a planilha de planejamento das ações.
Ocorreram seis encontros no período da tarde, sendo três para capacitação dos alunos, tanto para aproximação do componente quanto para instrumentalizá-los, e três para execução das ações. Os registros de cada encontro foram realizados pelos próprios estudantes de medicina através de um relatório elaborado em grupo. Depois, foi discutido com o preceptor as principais necessidades e viabilidade das ações e, por fim, a versão final foi digitalizada em documento Microsoft Word 2016 para posterior escrita do relato. Com base nisso, os discentes dividiram a extensão em quatro principais etapas: Aula de abertura para apresentação do componente; momento da territorialização; planejamento das ações e a execução da ação extensionista.
Os alunos investiram em uma aproximação gradual com as crianças do campo, dessa maneira utilizaram de uma metodologia baseada na pesquisa qualitativa a qual responde questões particulares, ou seja, aquelas que não podem ser reduzidas a operacionalização de variáveis (Minayo et al., 1993). Além disso, a pesquisa qualitativa coloca como ponto central a compreensão da realidade humana ao se viver socialmente, ou seja, um método empírico que possui abordagens diferentes para descrição, análise e interpretação dos dados do campo (Abad & Marques, 2021). Nesse sentido, o texto foi construído a partir da organização dos dados colhidos no campo e de reflexões críticas.
O relato dessa experiência em questão é uma pesquisa que busca evidenciar a importância da curricularização da extensão na formação dos estudantes de medicina, assim não identificando os participantes e locais da realização das ações. Portanto, não foi necessária a submissão desse relato no Comitê de Ética em Pesquisa/Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CEP/CONEP), regulamentada pela Resolução no 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Essa resolução preza pelo respeito à dignidade humana, assim dispensa a avaliação de pesquisas que não identificam participantes e aquelas que não possuem dados passíveis de identificar o sujeito.
Resultados
Aula de abertura para apresentação do componente
A aula de apresentação sobre o componente curricular contou com uma discussão sobre educação popular e promoção à saúde por meio de uma dinâmica interativa entre os estudantes de medicina e os preceptores. Esse método teve como intenção fomentar o compartilhamento sobre as experiências prévias dos discentes a respeito do processo de educação em saúde, proporcionando uma construção de conhecimento compartilhado.
Além disso, foram divididos os grupos para o projeto, delimitando uma pequena quantidade de integrantes para cada divisão, a fim de articular melhor as outras metas para a produção das atividades de extensão e possibilitar um maior contato entre professor, estudante e a comunidade.
Nessa perspectiva, é possível perceber que há uma intenção de proporcionar a relação interativa entre sociedade e universidade, ou seja, procura-se a união entre o conhecimento acadêmico e popular, estimulando uma aprendizagem elaborada quanto o cotidiano da população na vida dos universitários (Cruz et al., 2024). Entre outras temáticas, a conversa sobre todas as vertentes da saúde, incluindo a emocional, comportamental e social, propulsiona a prática da cidadania, já que ser cidadão engloba a característica de sujeito social ativo, este que visa abrir novos espaços de participação social (Silva & Niquini, 2021).
Momento da territorialização
O momento da territorialização foi a primeira visita diagnóstica na escola. Foram utilizados instrumentos desenvolvidos pelos docentes do componente para nortear esse primeiro contato. Isso foi crucial para que os estudantes da faculdade conhecessem o local de atuação das práticas extensionistas, e, assim, pudessem realizar ações baseadas nas necessidades da comunidade escolar. Ademais, foi no momento do reconhecimento das problemáticas do ambiente que aspectos como a escuta qualificada e um olhar atento para situações não expressas verbalmente foram exercitados, qualidades vitais para a formação de profissionais da área médica pautados na abordagem centrada na pessoa.
Nesse dia, os universitários foram apresentados à escola e a uma das salas, na qual foram reunidos para discutirem o funcionamento daquele ambiente, bem como estratégias a serem realizadas com as crianças, na presença da coordenadora pedagógica do local. Nesse âmbito, essa profissional, a qual assume tanto a função de supervisora, como de orientadora educacional, apresenta importância acerca dos acontecimentos do ambiente escolar. Além do mais, ela desempenha um papel fundamental na criação e inserção de atividades que fomentam o processo ensino-aprendizagem, auxiliando, por conseguinte, na construção de cidadãos que extrapolam a esfera “aprendizagem em prol do mercado de trabalho”, agindo de maneira crítica e sendo capazes de refletir e decidir suas próprias histórias dentro da sociedade.
Durante a conversa, foram esclarecidos os cenários do espaço educacional, o qual, por exemplo, é desprovido de condições adequadas de ventilação, tornando o momento de aprendizagem desconfortável para as 30 crianças e para a professora. Além disso, foi relatado o trabalho mútuo do Estado e da escola e como urge a aplicação efetiva dos recursos públicos na infraestrutura escolar e em uma educação de qualidade para os estudantes (Vasconcelos et al., 2021). Ademais, foi relatado e exemplificado o material acadêmico de uma das turmas, composto, dentre outros objetos, no ano de 2024, por um livro voltado para o maior conhecimento da dengue, arbovirose que está aflorando atualmente no Brasil.
Após a visita diagnóstica, foi realizada a reflexão crítica sobre os pontos levantados. Observou-se que há diferentes ambientes sociais, o que fomenta o processo de desenvolvimento e a formação dos futuros profissionais (Pinheiro & Narciso, 2022).
Planejamento das ações
Para o planejamento das ações, foi realizada uma reunião em grupo na universidade, a fim de discutir as demandas e impressões que surgiram durante a visita diagnóstica. A decisão das ações a serem realizadas foram pautadas nos moldes da Educação Popular em Saúde (EPS), uma vez que reuniram um conjunto de práticas pedagógicas de caráter participativo e emancipatório com o objetivo de sensibilizar, conscientizar e mobilizar para o enfrentamento de situações individuais e coletivas que interferem na qualidade de vida da comunidade (Cruz et al., 2024).
Ademais, as ações escolhidas buscam romper com a educação bancária, já que, ao invés de depositarem ensinamentos alheios à realidade do público-alvo, objetivam tornar a comunidade participativa e protagonista no processo de ensino (Freire, 2018).
Execução das ações extensionistas
Foram desenvolvidas três ações. Na primeira atividade, explorou-se o tema da saúde bucal utilizando um modelo interativo de uma boca feito de cartolina, como mostra a figura 1, juntamente com imagens de alguns alimentos. Os participantes foram convidados a colocar no modelo os alimentos que promovem a saúde bucal. Em seguida, foi apresentada a técnica correta de escovação, utilizando uma escova e uma dentadura de silicone. Também foi discutida a importância da higienização, demonstrando a lavagem adequada das mãos e realizando um experimento com água, detergente e orégano para mostrar como o sabão remove as partículas de sujeira. Ao final, foi fornecido um panfleto com ilustrações explicativas sobre o processo de higienização das mãos e escovação.
Figura 1
Modelo interativo de boca

Na segunda ação houve a abordagem acerca da alimentação saudável. Inicialmente, com a distribuição de folhas de papel ofício, as crianças foram incentivadas a desenhar alimentos os quais elas gostavam e não gostavam. Essa atividade serviu como ferramenta de apresentação do perfil alimentar dos sujeitos envolvidos na dinâmica. Em seguida, a turma foi dividida em três grupos. Nesse momento, uma pirâmide alimentar, desenhada em cartolina, foi exibida em cada grupo. Com a participação interativa das crianças, figuras impressas de alimentos foram inseridas nas devidas categorias que condicionavam a estrutura piramidal, esta evidenciada na figura 2. Houve uma breve discussão, de forma lúdica, sobre a alimentação saudável através da pirâmide e dos alimentos impressos. A finalização do encontro se deu com a distribuição de panfletos impressos, contendo jogos de palavras cruzadas e caça-palavras sobre a temática abordada, para todos os envolvidos. Com o auxílio dos membros extensionistas, as crianças foram impulsionadas a preencher o panfleto de modo ativo, sendo uma atividade com possível posterior continuidade.
Figura 2
Pirâmide alimentar desenhada em cartolina com impressões de alimento

Por fim, na terceira ação foi trabalhado com as crianças os hábitos saudáveis de vida voltados para atividade física e lazer, na qual foi explicada a importância e os benefícios corporais desses exercícios, durante uma breve conversa no início no encontro. Após a introdução, foi aplicado um alongamento coletivo, para evitar possíveis lesões com as atividades posteriormente feitas. Em seguida, houve a realização das brincadeiras de “morto vivo”, com todos seguindo as orientações de uma das extensionistas, e “estátua”, onde as crianças foram divididas em 3 grupos para a execução da atividade durante a música, a qual tocou através da caixa de som levada pelo grupo. Para finalizar a ação, foi praticada uma respiração guiada, com o viés de acalmar os alunos que se agitaram durante os exercícios. Além disso, como lembrança do último encontro, foram entregues balas tanto para os alunos, como para as professoras.
Discussão
Através das experiências desenvolvidas no projeto extensionista universitário, percebeu-se que a educação é um agente de impulsionamento à formação e ao desenvolvimento de cidadãos, sendo instrumento fundamental à disseminação de elementos básicos à consolidação da cidadania (Brito et al., 2021). Os encontros proporcionados corroboraram a ratificação do componente dinâmico do processo educativo em saúde, o qual é caracterizado por conciliar o ensino em sala de aula e o aprendizado (Santana et al., 2021). Nesse viés, a consecução de práticas populares em saúde compõe funcionalidades fulcrais, nas teorias sociais, para contribuir como instrumento de transformação social, partindo de âmbitos cotidianos e culturais como meios de obtenção da sensibilização em temas de saúde (Brito et al., 2021).
Essa abordagem educacional direcionada a um público infantil demandou habilidades que transcenderam o conhecimento técnico de ensino, tendo sido essencial o ato de cuidar e de entender o sujeito a partir de sua completude (Silva & Sei, 2021). Nesse sentido, o momento de territorialização, caracterizado como visita diagnóstica, exerceu ampla eminência à continuidade do processo extensionista escolar, servindo como instrumento de coleta de informações e de dados, a fim de uma adequada exploração das atividades a serem planejadas com o objetivo de execução em sala de aula. A atenção ao ato de cuidar no campo de interação torna possível um aperfeiçoamento de habilidades para melhor entender o outro, contribuindo para uma interação de melhor qualidade (Nunes et al., 2021; Silva & Sei, 2021).
A primeira ação, focalizada em aspectos higiênicos pessoais, especificamente em higiene bucal e das mãos, contribuiu à sensibilização dos indivíduos infantis para a amenização de atitudes viciosas, substituindo-os por hábitos salutares. Incentivar a aquisição de hábitos adequados e saudáveis desde a infância promove a prevenção contra possíveis comorbidades e acometimentos vigentes e futuros (Landim et al., 2024). A entrega de produtos para o ambiente escolar compreendeu objetivo de campanha à aquisição continuada dos conhecimentos empregados no momento extensionista.
A segunda ação, promovida através da conscientização acerca da alimentação saudável, reforçou a importância de uma dieta alimentar rica em diversidade e ponderação. Considerando que a infância é uma etapa de intenso desenvolvimento infantil e da formação de hábitos, a introdução alimentar, nessa faixa etária, de um regular e variado consumo de alimentos se transfigura imprescindível a um crescimento apto a usufruto das diversas atividades (Gadelha et al., 2024). Nesse aspecto, a escola, abrangendo esse contexto, torna-se uma ferramenta crucial à formação e à influência comportamentais das crianças integrantes (Santana et al., 2021).
A última ação foi desenvolvida acerca da prática de exercícios físicos, lazer, movimentos de alongamento e sessão de relaxamento. Devido à ausência de intervalo recreativo, o qual possibilita a interação interpessoal e, consequentemente, o desenvolvimento das relações de afeto, no ambiente escolar, o terceiro momento serviu como atenção com foco à humanização dos indivíduos, concomitante à sensibilização sobre a importância da atividade física no cotidiano. Desse modo, o incentivo à execução de exercícios físicos compreende o potencial de diminuir a incidência de doenças, além de possibilitar instante de lazer (Gadelha et al., 2024).
Diante disso, transcende-se à promoção da saúde o aprendizado e o impacto formativo tributários do projeto extensionista a cada membro universitário envolvido. Os episódios de experiência, proporcionados pela extensão, constituíram pilares de conhecimento aos alunos universitários integrantes no que se relaciona à prática da comunicação desenvolvida entre profissional da saúde e público-alvo a ser assistido (Pizzolatto et al., 2021). A escuta ativa se configurou como uma aquisição de ampla importância pelos discentes, pois oportunizou a identificação de demandas, vivências experienciadas pela comunidade e questões de saúde públicas deficitárias nesse ciclo de vida. Esse elemento contribui exponencialmente à evolução profissional dos estudantes em diversos âmbitos assistenciais da profissão, fator que oportuniza reflexão e evolução do contato público-paciente ainda na etapa estudantil (Silva & Sei, 2021).
A aplicação de conhecimentos acadêmicos de modo empático e humanizado também foi um dos fatores desenvolvidos no decorrer do projeto extensionista. Os encontros realizados permitiram o aperfeiçoamento e a integração entre docente, discente e comunidade em contextos reais, auxiliando os estudantes à aprimoração do saber e do fazer médico. Nesse aspecto, além de ultrapassar o conhecimento para além das fronteiras universitárias, tributário do princípio integrativo ensino-pesquisa-extensão da universidade, o componente corroborou para a conciliação dos conhecimentos teóricos com a aplicação prática, não sendo restrita à esfera clínica, mas compreendendo a promoção à saúde e suas reverberações tanto aos sujeitos universitários quanto à comunidade assistida (Nunes et al., 2021).
Além de um ser um processo de troca de conhecimentos entre os membros do grupo extensionista junto aos sujeitos infantis da escola, o projeto extensionista é um componente marcador da transformação da universidade, a qual, ao longo da sua trajetória, vem adquirindo diversas funcionalidades, a exemplo da formação pessoal e profissional de seus estudantes, da educação continuada e do reforço da criticidade (Pinheiro & Narciso, 2022). Sendo assim, há reafirmação do princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, com existência de respaldo legal, contribuindo à extensão como atividade imprescindível ao processo acadêmico-formativo da universidade (Nunes et al., 2021).
O estudo apresentou como limitação a avaliação de uma única turma de ensino fundamental, assim restringindo seus resultados a receptividade e compreensão, por um tempo limitado, com as mesmas crianças. A possibilidade de reencontros com o mesmo grupo, bem como a introdução de atividades com maior abrangência na escola, foi pensada pelos estudantes para análise completa do impacto positivo da extensão na vida desses alunos e se houve mudanças de hábitos de vida, logo, o que iria favorecer a saúde dessa turma.
Conclusão
O planejamento das atividades foi essencial para o desenvolvimento de competências pautadas pela ética, consciência crítica e proatividade na formação dos estudantes de medicina. Essa vivência permitiu exercitar o diálogo qualificado, a escuta ativa e a construção coletiva de estratégias, favorecendo a capacidade de lidar com adversidades e de elaborar intervenções alinhadas à realidade dos escolares. Além disso, os estudantes puderam exercitar a capacidade de lidar com diferentes perfis de estudantes da sala de aula que atuaram, tendo em vista a necessidade de acolher e auxiliar as crianças que necessitavam de mais apoio em determinadas atividades. Os universitários construíram uma relação de confiança com os alunos, o que possibilitou a realização das dinâmicas planejadas, resultado que pôde ser verificado por meio da relação de respeito estabelecida entre ambos.
Respeitar as singularidades, de acordo com os princípios bioéticos, no cuidado à saúde da criança; atuar como sujeito ativo no processo de ensino-aprendizagem; e desenvolver a capacidade de escuta, acolhimento, atitude colaborativa e ética, reconhecendo a diversidade e comprometendo-se com a equidade, foram algumas das competências desenvolvidas ao longo da extensão.
Além disso, a prática extensionista despertou nos acadêmicos um desejo mais humanizado de fazer medicina, centrado na escuta ativa e no protagonismo do outro. Tornou-se claro durante as ações que, independentemente da idade e da escolaridade, todos os indivíduos carregam consigo vivências e saberes particulares que devem ser valorizados, haja vista que não se pode cuidar das pessoas sem considerarmos as implicações do macro e micro contexto no qual esses sujeitos se inserem (Freire, 2018). Diante disso, buscou-se, no projeto, sempre envolver as crianças durante as atividades, explorando seus conhecimentos prévios sobre os temas abordados, acolhendo-as e retribuindo o afeto e o cuidado que elas demonstraram desde o primeiro encontro.
Decerto, a extensão conseguiu integrar universidade e comunidade, além de fomentar uma reflexão crítica mediante a educação popular em saúde, motivando o diálogo entre os saberes científicos e os saberes populares. Isso, mediante o compartilhamento de saberes, valoriza o reconhecimento da horizontalidade no processo de cuidado.
Contribuições dos autores
Os autores declararam ter feito contribuições substanciais ao trabalho em termos da concepção ou desenho da pesquisa; da aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho; e da redação ou revisão crítica de conteúdo intelectual relevante. Todos os autores aprovaram a versão final a ser publicada e concordaram em assumir a responsabilidade pública por todos os aspectos do estudo.
Conflitos de interesses
Nenhum conflito financeiro, legal ou político envolvendo terceiros (governo, empresas e fundações privadas, etc.) foi declarado para nenhum aspecto do trabalho submetido (incluindo, mas não se limitando a subvenções e financiamentos, participação em conselho consultivo, desenho de estudo, preparação de manuscrito, análise estatística, etc.).
Indexadores
A Revista Psicologia, Diversidade e Saúde é indexada no DOAJ, EBSCO, Latindex – Catálogo 2.0 e LILACS.
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