Artigo original

 

Prevalência e obstáculos ao retorno ao trabalho três meses após alta da UTI / Prevalence and obstacles to return to work three months after ICU discharge

 

Vanessa Marcela Lima dos Santos1 (https://orcid.org/0009-0003-8743-9517)

Kátia Santana Freitas2 (https://orcid.org/0000-0002-0491-6759)

Aloísio Machado da Silva Filho3 (https://orcid.org/0000-0001-8250-1527)

Monneglesia Santana Lopes Cardoso4 (https://orcid.org/0000-0001-9548-616X)

Pollyana Pereira Portela5 (https://orcid.org/0000-0002-6840-4533)

Vivian Manuela Lima dos Santos6 (https://orcid.org/0000-0001-8645-4094)

 

1Contato para correspondência. Universidade Estadual de Feira de Santana (Feira de Santana). Bahia, Brasil. [email protected] 

2-6Universidade Estadual de Feira de Santana (Feira de Santana). Bahia, Brasil. 

 

RESUMO | OBJETIVOS: Estimar a prevalência de retorno ao trabalho três meses após a alta da unidade de terapia intensiva (UTI) e caracterizar os obstáculos relacionados a esse retorno. MÉTODO: Estudo transversal aninhado a uma coorte prospectiva, conduzido entre 2022 e 2023, em hospital público de grande porte no interior baiano, com adultos três meses após a alta da UTI. Utilizaram-se as informações sociodemográficas e clínicas, bem como o instrumento Obstacles to Return to Work Questionnaire (ORTWQ). Análise realizada pelo SPSS e R, com estatística descritiva e analítica. RESULTADOS: Dos 52 participantes, a maioria era do sexo masculino (76,9%), cor de pele preta e parda (96,0%), internamento de natureza clínica (52,1%), classificados como graves (65%). A prevalência de retorno ao trabalho três meses após a alta da UTI foi de 19,2% e, entre os que ainda se encontravam afastados do trabalho, 43,9% por motivos de saúde. Os principais obstáculos percebidos foram o aumento da dor e a necessidade de descanso; as boas relações interpessoais e a autopercepção positiva foram aspectos satisfatórios. CONCLUSÃO: Três meses após a alta da UTI, a prevalência de retorno ao trabalho foi baixa. Egressos da UTI enfrentam desafios no domínio físico, mas contam com suporte social, familiar e ocupacional favorável.

 

PALAVRAS-CHAVE: Unidades de Terapia Intensiva. Cuidados Críticos. Retorno ao Trabalho. Saúde Ocupacional.

 

ABSTRACT | OBJECTIVES: To estimate the prevalence of return to work three months after discharge from the intensive care unit (ICU) and characterize barriers associated with this return. METHODS: This cross-sectional study, nested within a prospective cohort, was conducted between 2022 and 2023 at a large public hospital in the countryside of Bahia, Brazil, including adults assessed three months after ICU discharge. Sociodemographic and clinical data were collected, along with the Obstacles to Return to Work Questionnaire (ORTWQ). Statistical analyses were performed using SPSS and R, including descriptive and inferential analyses. RESULTS: Among the 52 participants, most were male (76.9%), identified as Black or mixed-race (96.0%), had medical admissions (52.1%), and were classified as critically ill (65%). The prevalence of return to work three months after ICU discharge was 19.2%. Among those who remained away from work, 43.9% reported health-related reasons. The main perceived barriers were increased pain and the need for rest, whereas positive interpersonal relationships and positive self-perception were identified as favorable aspects. CONCLUSION: Three months after ICU discharge, the prevalence of return to work was low. ICU survivors face challenges primarily in the physical domain but benefit from favorable social, family, and occupational support.

 

KEYWORDS: Intensive Care Units. Critical Care. Return to Work. Occupational Health.

 

Como citar este artigo: Santos VML, Freitas KS, Silva Filho AM, Cardoso MSL, Portela PP, Santos VML. Prevalência e obstáculos ao retorno ao trabalho três meses após alta da UTI. Rev Enferm Contemp. 2026;15:e6743. https://doi.org/10.17267/2317-3378rec.2026.e6743 

 

Submetido 8 fev. 2026, Aceito 18 maio 2026, Publicado 24 jul. 2026 

Rev. Enferm. Contemp., Salvador, 2026;15:e6743 

https://doi.org/10.17267/2317-3378rec.2026.e6743   

ISSN: 2317-3378 

Editoras responsáveis: Cátia Palmeira, Tássia Macêdo

 

1. Introdução 

 

Os avanços no cuidado intensivo ampliaram substancialmente a sobrevida de pessoas em situação de adoecimento crítico, tornando a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) um espaço central para o tratamento e a recuperação. No entanto, garantir a sobrevivência não esgota o papel do cuidado intensivo. Os efeitos da hospitalização em ambiente de alta complexidade estendem-se para além da alta hospitalar, impondo desafios funcionais, psíquicos e sociais que podem persistir a longo prazo e demandam atenção científica e assistencial crescente1-3.

 

A mudança abrupta na dinâmica da vida causada pela hospitalização em UTI pode configurar-se como estressor ambiental imediato e, ainda, como fator de risco para a redução do bem-estar a curto e a longo prazo4. Estar vivo após a doença crítica é primordial; no entanto, é substancialmente importante o pleno restabelecimento das funções biológicas e psíquicas, bem como o resgate da vida social para todos os envolvidos no processo de adoecimento, incluindo o retorno às atividades laborais. A garantia da qualidade de vida após o enfrentamento de uma doença grave é um dos grandes desafios da atualidade2.

 

O conjunto de déficits que emergem ou se agravam após a alta da UTI foi sistematizado sob a denominação de Post-Intensive Care Syndrome (PICS), traduzida como síndrome pós-terapia intensiva. A PICS compreende comprometimentos nos domínios físicos, cognitivos, mentais e sociais, que podem persistir por meses ou anos após a alta hospitalar2,3. Embora o retorno ao trabalho venha sendo identificado como um desfecho relevante na recuperação pós-UTI, análises bibliométricas da literatura sobre PICS revelam que os domínios cognitivo, mental e físico concentram a produção científica, enquanto o desempenho de papéis sociais, incluindo o trabalho, permanece sub-representado como objeto de estudo sistemático5.

 

Revisões sistemáticas confirmam que o desemprego é consequência frequente após a internação em UTI6-8, mas apesar das evidências sobre a importância do retorno ao trabalho, esse desfecho necessita receber mais atenção nas pesquisas de caráter interventivo em cuidados críticos9-11. Essa lacuna é relevante tanto para a produção científica quanto para a prática assistencial, uma vez que a capacidade de trabalhar representa dimensão central da recuperação funcional e da autonomia social da pessoa4,12,13.

 

O trabalho ocupa posição estruturante na vida do indivíduo como fonte de identidade, renda, pertencimento social e qualidade de vida7. A impossibilidade de retornar às atividades laborais após uma doença crítica não é um desfecho secundário, pois revela, mais uma vez, a incompletude da recuperação. Estimativas indicam que, três meses após a internação na UTI, cerca de dois terços das pessoas ainda se encontram afastadas do trabalho6,14 e uma coorte multicêntrica conduzida no Brasil revelou que 61,1% dos trabalhadores não haviam retornado ao trabalho nesse mesmo período15.

 

Aqueles que conseguem retornar ao trabalho após um período de internação na UTI frequentemente o fazem em condições precárias, com piora do status ocupacional ou perda do vínculo empregatício no curto prazo14. O desemprego pós-UTI repercute na renda familiar, na coesão social e no bem-estar coletivo, afetando de forma desproporcional os trabalhadores informais e as populações em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica7. Assim, a ausência de programas estruturados de reabilitação pós-UTI transfere o ônus do cuidado para as famílias e, por meio de reinternações e de dependência de longo prazo, retorna ao sistema de saúde sob a forma de custos evitáveis. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), em que há limitação de recursos e algumas vulnerabilidades estruturais, essa lacuna na continuidade do cuidado assume dimensão relevante e demanda atenção científica e política cuidadosa6,7,16.

 

Socialmente, o trabalho representa um componente valioso para o indivíduo e a família em suas singularidades, bem como para a sociedade em geral4. Evidenciar como a doença crítica pode impactar na dimensão social, com destaque para o trabalho, possibilita estender o olhar para o processo de adoecimento enfrentado pelas pessoas, que se estende para além do âmbito hospitalar, fortalecendo a saúde coletiva. Estudos demonstram que o retorno ao trabalho após doença crítica melhora a qualidade de vida e desfechos psicossociais6,18, enquanto o afastamento prolongado impacta negativamente a renda familiar e a saúde física e mental10.

 

Nesse cenário, a enfermagem desempenha um papel central e insubstituível. É a equipe de enfermagem que mantém contato contínuo com a pessoa internada em UTI, monitora a evolução clínica ao longo das horas, identifica precocemente sinais de comprometimento funcional e estabelece os primeiros vínculos com a família19. Reconhecer os obstáculos ao retorno ao trabalho, físicos, psicossociais e relacionados ao contexto laboral, é parte do cuidado integral que a enfermagem deve oferecer, não apenas durante o internamento, mas também em programas de acompanhamento e de transição de cuidado12, bem como na perspectiva da reabilitação e da reinserção social. A produção científica de enfermagem nessa área é, portanto, condição necessária para fundamentar protocolos, qualificar a assistência pós-alta e influenciar políticas de cuidado continuado a egressos da UTI19,20.

 

Diante da relevância social do trabalho como desfecho de recuperação e da necessidade de ampliar o conhecimento produzido pela enfermagem sobre os efeitos de longo prazo do cuidado intensivo, este estudo teve como objetivo estimar a prevalência de retorno ao trabalho três meses após a alta da UTI e caracterizar os obstáculos relacionados a esse retorno.

 

2. Métodos

 

Trata-se de um estudo transversal, de abordagem quantitativa, realizado entre janeiro de 2022 e fevereiro de 2023, em um hospital público geral de grande porte do interior da Bahia. Os dados provêm de uma coorte de acompanhamento de pacientes, com recorte temporal de três meses após a alta da UTI. A redação deste manuscrito seguiu as recomendações do guia Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)21. 

 

Participaram do estudo indivíduos que tiveram alta da UTI e atenderam aos seguintes critérios de inclusão: ter no mínimo 18 anos de idade, ter permanecido na UTI por pelo menos 48 horas, estar lúcido e orientado durante a coleta de dados, não ter diagnóstico prévio de transtorno cognitivo ou psíquico e não estar em uso de medicamentos para transtornos mentais, como ansiedade ou depressão. Foram excluídos participantes que foram transferidos da UTI de outro hospital, aqueles que tiveram alta domiciliar, uma vez que tal condição inviabiliza a coleta de dados na enfermaria, na linha de base, bem como aqueles que estiveram em isolamento de contato ou respiratório, portadores de deficiência física ou cognitiva prévia e aqueles com impossibilidade de contato telefônico.

 

Para a coleta de dados, procedeu-se a um rastreio diário no sistema hospitalar entre pacientes com alta programada, o que permitiu a identificação e a seleção dos indivíduos elegíveis. As informações sociodemográficas, clínicas e de caracterização social do trabalho foram obtidas durante a internação hospitalar, a partir dos dados registrados no prontuário eletrônico, e complementadas por entrevista estruturada realizada por meio de um questionário multitemático. Destaca-se que antes da entrevista na unidade de internação, todos os participantes foram esclarecidos sobre os objetivos do estudo e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

 

Os participantes foram contactados em dois momentos distintos. Na linha de base, realizou-se entrevista presencial na enfermaria, com duração média de 25 minutos, até o quinto dia após a alta da UTI, assegurando-se as condições de privacidade. Os dados clínicos foram obtidos por meio de consulta ao prontuário eletrônico e houveram variações no tamanho amostral em algumas variáveis decorrem da presença de dados ausentes. O seguimento ocorreu três meses após a alta da UTI, por meio de entrevista telefônica com duração média de 16 minutos, orientando-se os participantes a permanecerem em local reservado durante a coleta.

 

Ambas as entrevistas foram conduzidas por enfermeiros pesquisadores e por estudantes bolsistas de iniciação científica, previamente capacitados conforme o Manual de Coleta de Dados (ISBN 978-65-01-76027-8). Seguiu-se um roteiro estruturado, com o preenchimento dos instrumentos em tempo real. Os procedimentos foram refinados durante um estudo piloto de três meses.

 

A supervisão da coleta e a auditoria dos dados ocorreram ao longo de todo o estudo, sob responsabilidade das enfermeiras pesquisadoras. Os dados coletados foram anonimizados, armazenados no Research Electronic Data Capture (REDCap) e acessados exclusivamente pelos pesquisadores responsáveis, sendo utilizados apenas para fins científicos. Para mitigação de vieses, adotaram-se múltiplas tentativas de contato telefônico em dias e horários distintos (viés de atrito) e dupla digitação independente no REDCap com auditorias periódicas de consistência (viés de aferição).

 

A seleção dos participantes foi realizada por amostragem não probabilística. Inicialmente, utilizou-se uma amostragem consecutiva, na qual todos os pacientes que atendiam aos critérios de elegibilidade durante o período do estudo foram convidados a participar.  Abordaram-se os elegíveis durante o internamento na enfermaria, o que resultou em uma coorte inicial de 212 indivíduos. Deste total, foram incluídos apenas os participantes acompanhados por três meses após a alta da UTI, totalizando 77 indivíduos. Ao considerar os que trabalhavam previamente à internação na UTI, 52 foram elegíveis, conforme detalhado na Figura 1.

 

Figura 1. Fluxograma de seleção dos participantes do estudo, Feira de Santana, Bahia, Brasil, 2022-2023

 

Dos 212 participantes da coorte inicial, 135 (63,7%) foram perdidos ao terceiro mês de seguimento: 7 (3,3%) por óbito pós-alta, 1 (0,5%) por recusa e 127 (59,9%) por falha de contato telefônico.  As perdas de seguimento são amplamente descritas em estudos com egressos de UTI, com taxas de retenção variando de 18% a 100% conforme o período de acompanhamento, a gravidade clínica e a estrutura de suporte disponível22, o que pode introduzir viés de seleção23.

 

A taxa observada neste estudo é consistente com investigações em contextos de recursos limitados, como demonstrado em estudos prévios realizados em um hospital público22,24.

 

A situação laboral foi avaliada por meio do questionário Caracterização Social do Trabalho, que investiga a renda, o vínculo empregatício pré- e pós-internação, a carga horária e a percepção da capacidade laboral. Os obstáculos ao retorno ao trabalho foram investigados por meio do Obstacles to Return to Work Questionnaire (ORTWQ), instrumento multidimensional validado no contexto brasileiro25, que contém 55 itens em nove domínios. Para este estudo, foram selecionados estrategicamente 27 itens de quatro domínios: dificuldades para o retorno ao trabalho (DRT, 8 itens), suporte social no trabalho (SST, 6 itens), suporte e situação familiar (SSFa, 7 itens) e prognóstico autopercebido de retorno ao trabalho (PaRT, 6 itens).

 

A seleção parcial dos domínios deste instrumento priorizou o objeto de estudo proposto, bem como as particularidades da população-alvo. Esta decisão não compromete a interpretação, pois a adaptação brasileira recomenda a avaliação por domínios independentes, sem escore total, preservando as propriedades psicométricas de cada subescala, independentemente dos itens não incluídos. Itens formulados negativamente foram invertidos (0=6, 1=5, 2=4, 3=3, 4=2, 5=1, 6=0): itens 5, 18 e 31 (SST); itens 9, 27 e 32 (SSFa); e itens 1, 3, 4, 5 e 6 (PaRT). Escores mais elevados indicam maiores obstáculos ao retorno ao trabalho25.

 

O instrumento ORTWQ foi aplicado exclusivamente aos 42 participantes que estavam trabalhando antes da internação e que não retornaram após a alta da UTI. Destes, 23 responderam ao instrumento (taxa de resposta: 54,8% e perdas: 45,2%), atribuídas, em parte, à escala Likert de sete pontos (0 a 6), que se mostrou de difícil compreensão, resultando em recusas e na impossibilidade de responder. Entre os respondentes, o número de participantes válidos por item variou de 16 a 23, sendo o menor no item relativo à compreensão do supervisor quanto à dor do trabalhador (n = 16), inaplicável aos participantes autônomos sem vínculo hierárquico.

 

Os dados foram analisados pelo SPSS versão 22.0 e R versão 4.5.0. As variáveis categóricas foram descritas por frequências absolutas e relativas, e as variáveis contínuas, após verificação de não normalidade pelo teste de Shapiro-Wilk, por mediana e intervalo interquartílico (IIQ). A comparação entre grupos (retornaram versus não retornaram ao trabalho) utilizou o teste de Mann-Whitney U para variáveis contínuas e o teste Exato de Fisher para categóricas (α = 0,05), e as variáveis multicategóricas foram submetidas a teste global seguido de comparações par a par. Os itens dos domínios do ORTWQ foram descritos por mediana e IIQ.

 

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS, parecer consubstanciado n° 3.527.238 (CAAE: 13234419.9.0000.0053), e conduzido em conformidade com as Resoluções CNS n° 466/2012, n° 510/2016 e n° 580/2018, com as diretrizes de Boas Práticas Clínicas e com a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei n° 13.709/2018).

 

3. Resultados

 

Dos 52 participantes elegíveis que trabalhavam previamente à internação, a mediana de idade foi de 49,0 anos (IIQ 38,0 – 61,0), maioria do sexo masculino (76,9%), cor de pele preta e parda (96,0%), com maior escolaridade (67,3%), sem companheiro (53,8%), com religião (90,4%), renda de até três salários mínimos (89,6%), internamento de natureza clínica (52,1%) e classificados como graves (65%), conforme explicitado na Tabela 1.

 

Ao final do terceiro mês após a alta da UTI, apenas 19,2% retornaram ao trabalho. A proporção de retorno ao trabalho foi superior entre os participantes do sexo masculino (22,5%), pretos e pardos (20,8%), com maior escolaridade (25,7%), com renda familiar acima de quatro salários mínimos (40,0%). Quanto ao estado de saúde pregressa, a maioria não apresentava problema físico prévio nem internação anterior em UTI, a mediana do tempo de internação hospitalar foi de 9 dias (IIQ 6–15) e a da internação em UTI, de 5 dias (IIQ 3–10). A amostra distribuiu-se de forma equilibrada entre diagnósticos clínicos (52%) e cirúrgicos (48%), com taxas de retorno semelhantes nos grupos (20,0% e 21,7%). Dos participantes considerados graves, 15,4% retornaram ao trabalho.

 

Tabela 1. Caracterização sociodemográfica e clínica de pacientes de acordo com o retorno ao trabalho três meses após a alta da Unidade de Terapia Intensiva, Feira de Santana, Bahia, 2022-2023 (n = 52)

Nota. SM = salário mínimo. n (%): frequências absolutas e relativas calculadas sobre o total de participantes em cada categoria (total da linha). *n < 52 indica dados ausentes. **Comparações realizadas pelo Teste Exato de Fisher, p < 0,05 é considerado estatisticamente significativo. A primeira categoria de cada variável é a de comparação; a segunda, a de referência. O nível de gravidade clínica foi classificado conforme Consenso Brasileiro de Monitorização e Suporte Hemodinâmico26.

 

Ainda na tabela 1, a maioria dos participantes não foi submetida a intervenções terapêuticas invasivas nem apresentou as complicações clínicas avaliadas. As taxas de retorno foram semelhantes entre os subgrupos, variando de 14% a 22%, independentemente da exposição aos suportes ou da ocorrência de complicações. A exceção foi o choque de qualquer tipo, ausente em 84,3% dos participantes, com taxa de retorno de 14% nesse subgrupo, sendo a única variável clínica com associação estatisticamente significativa (p = 0,038).

 

No que concerne à caracterização da situação de trabalho, elucidada na Tabela 2, todos os 52 participantes exerciam atividade laboral antes da internação, e três meses após a alta da UTI, 19,2% haviam retornado ao trabalho e 80,8% permaneciam afastados. Entre os participantes que informaram a situação laboral no momento da avaliação, a maioria estava em afastamento por doença (43,9%), seguida de desemprego (24,4%). Entre desempregados e afastados por doença, a maioria dos respondentes acredita que o afastamento afetou a qualidade de vida e está relacionado ao estado de saúde (88,9%). 

 

Tabela 2. Caracterização da situação de trabalho de pacientes três meses após a alta da UTI, em Feira de Santana, Bahia, 2022-2023 (n = 42)

Nota. ᵃDez participantes retornaram ao trabalho (10/52 = 19,2%). ᵇUm participante não respondeu à questão sobre a situação de trabalho atual (n = 41). ᶜSubgrupo composto por desempregados e afastados por doença (n = 28), dos quais 1 não respondeu (n = 27). ᵈSubgrupo dos desempregados (n = 10), dos quais 1 não respondeu (n = 9).

 

Os obstáculos ao retorno ao trabalho foram investigados em 42 participantes que ainda estavam afastados no terceiro mês pós-alta da UTI, porém, houve variação no número de respondentes por item do ORTWQ (de 16 a 23), decorrente de perdas parciais. A Tabela 3 apresenta os obstáculos por domínio. No domínio dificuldades para retorno ao trabalho (DRT), verificou-se elevada percepção de obstáculos entre os participantes. As medianas situaram-se entre 3,0 e 5,5 em grande parte dos itens, com destaque para a limitação funcional por dor, a necessidade de repouso e o isolamento social. Itens relativos ao impacto da fadiga sobre o sentido de vida apresentaram medianas menores (2,0–3,5), com ampla variabilidade interquartil.

 

No domínio suporte social no trabalho (SST), predominaram medianas nulas ou próximas de zero, indicando baixa percepção de obstáculos no trabalho. Itens sobre a relação com o supervisor apresentaram maior variabilidade (medianas de 0,0–1,5; IIQ amplos), sugerindo que, para parte dos respondentes, o suporte da chefia constituiu um obstáculo de maior intensidade. Já no domínio suporte e situação familiar (SSFa), praticamente todos os itens apresentaram mediana igual a zero e IIQ reduzidos, com padrão mais homogêneo entre os quatro domínios.

 

A exceção foi o item sobre dificuldade de encontrar energia para trabalhar em razão de problemas familiares ou sociais (IIQ 0,00–4,00), que apresentou maior amplitude no domínio, sinalizando que, para uma parcela dos respondentes, essa dimensão teve impacto mais expressivo.

 

Tabela 3. Obstáculos relacionados ao retorno ao trabalho três meses após a alta da Unidade de Terapia Intensiva, em Feira de Santana, Bahia, 2022-2023 (n = 42)

Nota. IIQ = intervalo interquartílico.  *n = total de participantes difere do número de participantes em cada item devido à ausência de respostas. Escores dos itens variam de 0 a 6. O menor número de respondentes no item 5 do domínio SST reflete a inaplicabilidade do item aos participantes autônomos. Distribuição assimétrica verificada pelo teste de Shapiro-Wilk.

 

Observou-se, ainda, no domínio do prognóstico autopercebido de retorno ao trabalho (PaRT), que a crença na possibilidade de retorno foi predominantemente favorável. Itens sobre percepção de chance e motivação apresentaram medianas nulas ou próximas de zero após reversão, sugerindo ausência de obstáculo nessa dimensão para a maioria. A maior incerteza concentrou-se nos itens sobre dificuldade percebida no processo de retorno (mediana 1,5) e sobre a perspectiva de independência do cuidado médico no futuro (mediana 3,0), ambos com ampla dispersão interquartil.

 

4. Discussão

 

A amostra foi composta predominantemente por adultos do sexo masculino, autodeclarados pretos e pardos, com baixo nível educacional e renda mensal entre um e três salários mínimos (SM), perfil consistente com investigações sobre egressos de UTI11,15. A literatura indica que a baixa escolaridade constitui preditor de atraso no retorno ao trabalho6,7,15, por conseguinte, mais anos de estudo estão associados a maiores chances de não desenvolver PICS27. Neste estudo não foram evidenciadas associações estatisticamente significativas entre as características clínicas e o retorno ao trabalho; no entanto, evidências apontam que a gravidade clínica na admissão e as complicações ocorridas durante a internação resultam em incapacidade para o retorno3,15.

 

A prevalência de retorno ao trabalho três meses após a alta da UTI neste estudo foi de 19,2%. Uma revisão sistemática com meta-análise que reuniu dados de mais de 20 estudos de coorte em diferentes países estimou que aproximadamente um terço dos sobreviventes de UTI retornam ao trabalho nos primeiros três meses após a alta, com variações substanciais de acordo com o período de acompanhamento, a gravidade clínica e o contexto institucional6.

 

Em contextos com maior estrutura de suporte pós-alta e reabilitação organizada, como os descritos em coortes europeias, as taxas de retorno tendem a ser mais elevadas, variando de 30% a 50%9,28, o que pode sugerir que o desfecho laboral após a doença crítica não seja determinado apenas pela gravidade clínica. Porém, de forma relevante, mostram-se a disponibilidade de recursos assistenciais e o contexto socioeconômico do egresso. Deve-se ponderar, adicionalmente, que a elevada taxa de perda de seguimento registrada neste estudo pode ter introduzido viés de seleção, portanto, deve-se interpretar as estimativas considerando esta limitação estrutural23.

 

No cenário nacional, uma coorte multicêntrica identificou que 61,1% dos trabalhadores brasileiros internados em UTI não haviam retornado ao trabalho nesse mesmo período, resultado que, embora evidencie a dimensão do problema no Brasil, ainda é proporcionalmente superior ao retorno observado na presente investigação15.  Essa diferença pode refletir, ao menos em parte, as particularidades do cenário estudado, que trata de um hospital público do interior da Bahia, com amostra majoritariamente pequena e composta por trabalhadores com baixa escolaridade, renda inferior a três SM e vínculos de trabalho precários, características que configuram um perfil de acentuada vulnerabilidade socioeconômica.

 

Entre os 80,8% que não retornaram ao trabalho ao final do terceiro mês, verificou-se uma distribuição heterogênea de situações, com destaque para o afastamento por doença e o desemprego. O afastamento previdenciário, embora implique interrupção do trabalho, preserva o vínculo formal e a renda temporária, já o desemprego representa ruptura do vínculo, com implicações econômicas e psicossociais mais severas29.

 

Desfechos de emprego foram investigados no Reino Unido, e identificou-se que uma parcela relevante dos egressos de UTI passou a depender de benefícios sociais após a alta, o que configura uma trajetória de dependência econômica de longa duração18. Outro estudo de seguimento de 12 meses documentou piora substancial no status ocupacional de egressos de UTI, com redução de renda e agravamento das condições socioeconômicas10.

 

O dado de que 88,9% dos indivíduos afastados ou desempregados neste estudo referiram impacto negativo do afastamento na qualidade de vida, bem como o fato de uma proporção equivalente de desempregados atribuir essa condição diretamente ao seu estado de saúde atual, mostram-se consistentes com a literatura. Estudo de revisão sistemática com meta-análise que investigou a associação entre o retorno ao trabalho e desfechos psicossociais evidenciou que o emprego após doença crítica está associado a melhor saúde mental, maior senso de identidade e melhor qualidade de vida percebida7.

 

No que se refere aos obstáculos ao retorno ao trabalho, o domínio DRT apresentou o padrão mais expressivo entre os quatro domínios avaliados, com destaque para o aumento da dor e a percepção de incapacidade para continuar no trabalho. Esse perfil de obstáculos é compatível com o quadro que é evidenciado na PICS, que engloba comprometimentos físicos, cognitivos, psicológicos e sociais persistentes após a alta da UTI1,3. Estudo adicional de revisão sistemática identificou que comprometimentos físicos, incluindo dor, fadiga e redução da capacidade funcional, figuravam entre os preditores mais consistentes da impossibilidade de retorno ao trabalho após a doença crítica, independentemente do contexto e do tipo de desfecho avaliado8.

 

Estudo prospectivo com pacientes acompanhados por um ano após a alta da UTI identificou que fatores físicos e psicossociais influenciam simultaneamente o retorno ao trabalho, sendo as limitações físicas particularmente determinantes nos primeiros meses após a alta11. O isolamento social, como expressão do afastamento laboral, também avaliado pelo domínio DRT, encontra correspondência na literatura que documenta a retração das redes sociais como sequela indireta da PICS10,13, configurando um ciclo em que a limitação física amplifica o isolamento e este, por sua vez, compromete a motivação e a autopercepção de capacidade para o retorno.

 

Em contraposição ao padrão observado no domínio físico, os domínios SST e SSFa apresentaram medianas predominantemente nulas, indicando que conflitos interpessoais, clima organizacional adverso e sobrecarga familiar não foram percebidos como obstáculos relevantes pela maioria dos participantes. Boas relações com colegas de trabalho e suporte familiar foram percebidos como satisfatórios. A literatura identifica o suporte social como facilitador consistente do retorno ao trabalho após hospitalização7,11,14 e demonstrou que fatores psicossociais favoráveis, entre os quais o suporte do ambiente de trabalho e familiar, estiveram associados a melhores desfechos ocupacionais no primeiro ano pós-UTI.

 

O domínio PaRT revelou um perfil predominantemente favorável, com medianas nulas ou próximas de zero nos itens de percepção de chance e de motivação para o retorno, indicando ausência de obstáculos nessa dimensão na maioria dos respondentes. Esse achado contrasta com a baixa prevalência de retorno efetivo observada no estudo e sugere que a autopercepção positiva, embora com valor preditivo reconhecido na literatura, não é suficiente quando barreiras estruturais, como a instabilidade do vínculo empregatício, a ausência de adaptação do posto de trabalho e limitações previdenciárias, se interpõem entre a intenção e o retorno real14.

 

A ampla dispersão interquartil observada nos itens sobre a dificuldade percebida no processo de retorno e sobre a perspectiva de independência do cuidado médico no futuro, do domínio PaRT, indica que o grupo não é internamente homogêneo nessa dimensão e que, para uma parcela dos respondentes, a incerteza foi considerável. Esse aspecto tem implicação prática direta, visto que intervenções voltadas ao ajuste realista de expectativas, conduzidas por equipes de saúde na transição do cuidado, poderiam contribuir para reduzir a discrepância entre o prognóstico autopercebido e as barreiras reais ao retorno12,19.

 

A ausência de programas organizados de reabilitação pós-UTI no âmbito do SUS constitui uma lacuna assistencial relevante. Coorte multicêntrica brasileira evidenciou que o não retorno ao trabalho foi frequente mesmo em centros de referência com maior capacidade assistencial15, sugerindo que o problema não se resolve apenas com a qualidade do cuidado intra-hospitalar, mas também demanda continuidade desse cuidado após a alta. Em estudo de investigação sobre a influência da qualidade do cuidado intensivo no retorno ao trabalho em pacientes vítimas de Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo, identificou-se que a qualidade do cuidado na UTI influencia desfechos a longo prazo28, o que reforça o papel da enfermagem não apenas no manejo agudo, mas também na preparação precoce para a reabilitação e no planejamento da alta19.

 

O profissional de enfermagem integrante da equipe de saúde, com presença contínua na UTI, tem responsabilidade central na transição de cuidados, bem como ocupa posição estratégica para identificar precocemente os riscos envolvidos no não retorno ao trabalho, rastrear os comprometimentos físicos e não físicos desde a internação, encaminhar para serviços de reabilitação e acompanhar no pós-alta19,20.

 

Entre as principais limitações do estudo, destacam-se o tamanho amostral reduzido, a ausência de validação dos instrumentos para a população investigada, dificuldades operacionais na coleta telefônica e dificuldades de compreensão dos itens do ORTWQ, o que resultou em perda de respondentes. Soma-se a isso o impacto emocional do processo de coleta, dado que os participantes foram solicitados a rememorar a experiência de adoecimento crítico e a relatar vulnerabilidades financeiras. O desenho transversal impede inferências causais, e os resultados não devem ser generalizados, considerando o perfil de vulnerabilidade da amostra e a expressiva taxa de perdas. Porém, faz-se necessário destacar as potencialidades deste estudo por meio da abordagem de uma temática em ascensão na agenda científica nacional e do uso de um instrumento multidimensional para a mensuração das barreiras ao retorno ao trabalho.

 

5. Conclusão

 

Egressos de UTI apresentaram baixa prevalência de retorno ao trabalho três meses após a alta. Os obstáculos predominantes foram de natureza física, sobretudo a dor e a necessidade de repouso. Os domínios de suporte social (trabalho e família) e de percepção do retorno apresentaram um perfil favorável na maioria dos participantes, sem obstáculos relevantes. Contudo, a ampla dispersão observada em itens sobre dificuldade percebida no retorno e perspectiva de independência indica heterogeneidade interna do grupo, com incerteza considerável em uma parcela dos respondentes.

 

Os achados evidenciam a necessidade de implementar intervenções de enfermagem precoces e contínuas, iniciadas ainda durante a internação na UTI, considerando que as sequelas físicas, cognitivas, psíquicas e sociais que comprometem o retorno ao trabalho, agrupadas sob o conceito de PICS, têm origem no período crítico da doença. Ademais, recomenda-se o desenvolvimento de investigações multicêntricas, com acompanhamento ao retorno laboral, as quais são fundamentais para compreender as barreiras estruturais e individuais enfrentadas por essa população, bem como para orientar a elaboração de programas de reabilitação e intervenções direcionadas à melhoria da funcionalidade e da qualidade de vida após a alta da UTI.

 

Contribuições dos autores 

 

Os autores declararam ter feito contribuições substanciais ao trabalho em termos da concepção ou desenho da pesquisa; da aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho; e da redação ou revisão crítica de conteúdo intelectual relevante. Todos os autores aprovaram a versão final a ser publicada e concordaram em assumir a responsabilidade pública por todos os aspectos do estudo.  

 

Conflitos de interesses 

 

Nenhum conflito financeiro, legal ou político envolvendo terceiros (governo, empresas e fundações privadas, etc.) foi declarado para nenhum aspecto do trabalho submetido (incluindo, mas não se limitando a subvenções e financiamentos, participação em conselho consultivo, desenho de estudo, preparação de manuscrito, análise estatística, etc.). 

 

Indexadores 

 

Revista Enfermagem Contemporânea é indexada no DOAJ e EBSCO

 

Referências 

 

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